POR DENTRO DA MENTE DE NARCISISTAS E PSICOPATAS

POR DENTRO DA MENTE DE NARCISISTAS E PSICOPATAS

Dr. Antonio Maspoli

RESUMO

Narcisismo e psicopatia compartilham alguns comportamentos, mas esses comportamentos podem possuir funções psicológicas profundamente diferentes. A análise considera grandiosidade, empatia, culpa, manipulação, relações interpessoais e agressividade, articulando Freud, Jung, Kernberg, Kohut, Cleckley, Hare e neurociência contemporânea. O objetivo é compreender os principais pontos de aproximação entre personalidade narcisista e personalidade psicopática, identificar diferenças estruturais entre os dois modos de funcionamento da personalidade e evitar a confusão entre narcisismo, psicopatia, violência e criminalidade.

Palavras-chave: narcisismo; psicopatia; personalidade; empatia; culpa.

1 INTRODUÇÃO

Narcisismo e psicopatia compartilham alguns comportamentos, mas esses comportamentos podem possuir funções psicológicas profundamente diferentes. Por isso, a compreensão dos principais pontos de aproximação entre personalidade narcisista e personalidade psicopática exige, ao mesmo tempo, a identificação de diferenças estruturais entre os dois modos de funcionamento da personalidade.

A comparação envolve grandiosidade, empatia, culpa, manipulação, relações interpessoais e agressividade. A articulação entre Freud, Jung, Kernberg, Kohut, Cleckley, Hare e a neurociência contemporânea permite organizar semelhanças e diferenças sem confundir narcisismo, psicopatia, violência e criminalidade (Freud, 1914/1957; Jung, 1951/1968; Kernberg, 1975; Kohut, 1971; Hare; Neumann, 2008).

 

 

2 SEMELHANÇAS ENTRE NARCISISMO E PSICOPATIA

2.1 Grandiosidade e sentimento de superioridade

Tanto narcisistas quanto psicopatas podem apresentar sentimento exagerado de importância, percepção de superioridade, expectativa de tratamento diferenciado, dificuldade em reconhecer limitações e tendência a se considerar diferentes das pessoas comuns.

No narcisismo, Freud relaciona esse funcionamento ao investimento libidinal no Eu, à idealização e ao ideal do Eu. Kernberg descreve o self grandioso patológico, no qual elementos idealizados da própria identidade são utilizados defensivamente para sustentar uma imagem superior de si. Na psicopatia, a grandiosidade aparece como um dos elementos da dimensão interpessoal descrita por Hare.

Freud relaciona autoestima, idealização e investimento narcísico do Eu (Freud, 1914/1957, p. 94-98). As referências mobilizadas para essa aproximação incluem Freud (1914/1957, p. 94-98), Kernberg (1975, p. 282-284) e Hare e Neumann (2008, p. 219).

2.2 Egocentrismo

Nas duas personalidades, o próprio Eu pode ocupar posição privilegiada na relação com o mundo. Entre as características comuns estão prioridade aos próprios interesses, dificuldade de considerar igualmente as necessidades alheias, sentimento de direito, tendência a exigir privilégios e baixa reciprocidade em determinadas relações.

A diferença entre desejo saudável e egocentrismo patológico está na incapacidade de reconhecer plenamente o outro como sujeito independente. Em termos junguianos, pode ocorrer uma hipertrofia da posição do Ego em detrimento da alteridade. A maturidade psicológica exige reconhecer que o outro possui existência, desejos e limites independentes do Eu (Jung, 1928/1966, p. 139-171; Cleckley, 1976; Hare, 2003).

 

 

2.3 Comprometimento da empatia

Narcisistas e psicopatas podem apresentar dificuldades de empatia. Entretanto, é necessário distinguir empatia cognitiva, isto é, compreender intelectualmente aquilo que o outro sente, e empatia afetiva, isto é, ser emocionalmente mobilizado pela experiência do outro.

No narcisismo, a empatia pode diminuir quando as necessidades do próprio self são ameaçadas. Na psicopatia, o comprometimento da empatia afetiva tende a ser mais profundo e mais estável. A pessoa pode compreender o sofrimento de alguém sem necessariamente se sensibilizar por ele. No narcisismo patológico, a empatia pode ser variável e dependente da motivação e da situação (Baskin-Sommers; Krusemark; Ronningstam, 2014, p. 323-333; Jauk; Kanske, 2021; Hare; Neumann, 2008).

2.4 Manipulação interpessoal

Tanto narcisistas quanto psicopatas podem utilizar estratégias de manipulação. Podem aparecer sedução, mentira, culpa, intimidação, desqualificação, controle emocional e exploração das vulnerabilidades do outro.

A manipulação transforma a relação, reduzindo a reciprocidade. O outro passa a exercer uma função específica para o indivíduo. No narcisismo, pode servir à manutenção da autoestima e da admiração. Na psicopatia, pode servir diretamente à obtenção de vantagens. A semelhança está no comportamento manipulador; a diferença encontra-se na função psicológica da manipulação (Kernberg, 1975; Kohut, 1971; Cleckley, 1976; Hare, 2003).

 

 

2.5 Externalização da culpa

Outra característica compartilhada é a dificuldade de assumir responsabilidade. Expressões comuns são: “A culpa foi dele”; “Ela provocou”; “Se não tivesse feito aquilo, nada teria acontecido”; “Eu apenas reagi”; “O problema não está em mim”.

Jung oferece uma chave importante por meio do conceito de projeção da sombra. Conteúdos que o Ego não consegue reconhecer podem ser atribuídos ao outro. Na psicopatia, a transferência de responsabilidade pode também ser conscientemente estratégica. Para Jung, reconhecer a sombra constitui um problema moral porque exige admitir como próprios aspectos desagradáveis da personalidade (Jung, 1951/1968, p. 8-10).

2.6 Relações assimétricas e instrumentalização do outro

Nas duas organizações, as relações podem perder reciprocidade. O outro pode tornar-se fonte de admiração, instrumento de poder, meio para obtenção de prazer, confirmação da própria importância, recurso econômico ou social ou objeto de controle.

Em ambos os casos, existe risco de a pessoa deixar de ser reconhecida em sua autonomia. A relação passa a ser avaliada predominantemente pelo que oferece ao indivíduo. Tanto o narcisista quanto o psicopata podem utilizar o outro, mas não necessariamente pelas mesmas razões (Freud, 1914/1957, p. 75-76; Kernberg, 1975, p. 282-284; Hare; Neumann, 2008).

 

 

3 DIFERENÇAS ENTRE NARCISISMO E PSICOPATIA

3.1 O outro como espelho ou como instrumento

Esta é uma das diferenças mais importantes. No narcisismo, o outro tende a funcionar como espelho. As perguntas inconscientes podem ser: “Você me admira?”, “Você reconhece meu valor?”, “Você confirma minha importância?” e “Você me considera especial?”.

Na psicopatia, o outro pode funcionar prioritariamente como instrumento. As perguntas predominantes podem ser: “O que posso conseguir com você?”, “Como posso controlar você?” e “Como você pode servir aos meus objetivos?”.

O narcisista necessita que o outro confirme sua grandeza. O psicopata pode necessitar apenas que o outro seja útil (Kohut, 1971, p. 114-116; Hare; Neumann, 2008, p. 219).

3.2 Autoestima e necessidade de admiração

Na personalidade narcisista, a autoestima pode ser grandiosa externamente, frágil internamente, dependente de admiração, vulnerável à rejeição e sensível à comparação. Kohut explica essa dinâmica por meio das necessidades de espelhamento e da regulação do self.

Na personalidade psicopática, a aprovação emocional do outro tende a ser menos central. O indivíduo pode desejar status e poder, mas não necessariamente precisa ser amado ou admirado para preservar a própria identidade. O narcisista pergunta: “O que você pensa de mim?”. O psicopata pergunta: “O que posso obter de você?” (Freud, 1914/1957, p. 98; Kohut, 1971; Jauk; Kanske, 2021).

 

 

3.3 Culpa e remorso

A culpa é um dos principais elementos de diferenciação. O narcisista pode sentir culpa e remorso, porém pode negar inicialmente, racionalizar, projetar ou resistir a admitir o erro. Reconhecer a culpa ameaça a autoimagem.

Na psicopatia, a redução da culpa e do remorso é muito mais central. O indivíduo pode saber intelectualmente que prejudicou alguém sem experimentar sofrimento moral proporcional. O narcisista pode negar a culpa porque ela fere sua autoimagem. O psicopata pode não sentir culpa suficiente pelo sofrimento que causou (Freud, 1923/1961, p. 34-39; Hare; Neumann, 2008; Cleckley, 1976).

3.4 Crítica, humilhação e ferida narcísica

No narcisismo, a crítica pode produzir uma verdadeira ferida narcísica. Entre as possíveis respostas estão vergonha, humilhação, raiva, retraimento, ataque ao crítico e desqualificação. A crítica ameaça diretamente a representação idealizada do self.

Na psicopatia, a crítica pode gerar raiva, mas principalmente quando ameaça o controle, representa derrota, impede um objetivo, desafia sua autoridade ou expõe sua estratégia. Para o narcisista, a crítica ameaça sua identidade. Para o psicopata, pode ameaçar seu domínio ou seu objetivo (Jung, 1928/1966, p. 169-171; Jauk; Kanske, 2021).

 

 

3.5 Agressividade reativa e agressividade instrumental

Na personalidade narcisista, a agressividade tende frequentemente a ser reativa. Pode aparecer diante de humilhação, rejeição, abandono, crítica ou perda de prestígio. A agressão surge como resposta à ferida sofrida pelo Ego.

Na psicopatia, a agressividade pode assumir caráter instrumental. O indivíduo pode utilizar violência ou intimidação para controlar, conseguir vantagens, eliminar obstáculos, dominar ou alcançar um objetivo. A agressão pode ser planejada e não depender de descontrole emocional.

A agressão narcisista frequentemente responde à ferida do Ego. A agressão psicopática pode constituir um meio para atingir um fim (Hare, 2003; De Brito et al., 2021).

3.6 Neurociência: ameaça ao self versus processamento emocional

A neurociência contemporânea encontra diferenças importantes, embora não existam exames individuais capazes de diagnosticar narcisismo ou psicopatia.

No narcisismo, as pesquisas destacam ameaça ao Ego, regulação da autoestima, reatividade ao estresse, rede de saliência, processamento autorreferencial e processos socioafetivos. Na psicopatia, as pesquisas enfatizam processamento do medo, aprendizagem por punição, recompensa, empatia afetiva, tomada de decisão, amígdala, córtex pré-frontal ventromedial e regiões orbitofrontais e frontolímbicas.

No narcisismo, a ameaça ao self assume posição central. Na psicopatia, destacam-se alterações relacionadas à emoção, empatia, reforço e decisão (Jauk; Kanske, 2021; Schulze et al., 2013, p. 1363-1369; De Brito et al., 2021).

 

 

4 SÍNTESE DAS SEMELHANÇAS

Narcisismo e psicopatia apresentam pontos de aproximação importantes. A grandiosidade e o sentimento de superioridade podem estar presentes nas duas personalidades. Nas duas, o próprio Eu pode ocupar posição privilegiada na relação com o mundo, e a dificuldade de reconhecer plenamente o outro como sujeito independente pode comprometer a reciprocidade.

Também podem ocorrer dificuldades de empatia. A distinção entre empatia cognitiva e empatia afetiva é relevante porque uma pessoa pode compreender intelectualmente aquilo que o outro sente sem necessariamente ser emocionalmente mobilizada pela experiência alheia. No narcisismo, a empatia pode variar conforme a motivação e a situação; na psicopatia, o comprometimento da empatia afetiva tende a ser mais profundo e estável.

A manipulação interpessoal pode igualmente surgir nas duas organizações. Sedução, mentira, culpa, intimidação, desqualificação, controle emocional e exploração das vulnerabilidades do outro reduzem a reciprocidade. A semelhança está no comportamento manipulador; a diferença encontra-se na função psicológica da manipulação.

A externalização da culpa constitui outro ponto de aproximação. Conteúdos que o Ego não consegue reconhecer podem ser atribuídos ao outro, enquanto, na psicopatia, a transferência de responsabilidade pode também ser conscientemente estratégica. Nas relações assimétricas, o outro pode tornar-se fonte de admiração, instrumento de poder, meio para obtenção de prazer, confirmação da própria importância, recurso econômico ou social ou objeto de controle.

 

 

5 SÍNTESE DAS DIFERENÇAS

A diferença entre o outro como espelho e o outro como instrumento organiza a distinção central entre narcisismo e psicopatia. O narcisista necessita que o outro confirme sua grandeza. O psicopata pode necessitar apenas que o outro seja útil. Essa diferença reaparece na autoestima e na necessidade de admiração, na culpa e no remorso, na reação à crítica e na agressividade.

Na personalidade narcisista, a autoestima pode ser grandiosa externamente e frágil internamente, dependente de admiração, vulnerável à rejeição e sensível à comparação. Na personalidade psicopática, a aprovação emocional do outro tende a ser menos central, ainda que o indivíduo possa desejar status e poder.

A culpa também distingue os dois funcionamentos. O narcisista pode sentir culpa e remorso, embora possa negar, racionalizar, projetar ou resistir a admitir o erro porque reconhecer a culpa ameaça a autoimagem. Na psicopatia, a redução da culpa e do remorso é muito mais central.

A crítica pode produzir uma verdadeira ferida narcísica e gerar vergonha, humilhação, raiva, retraimento, ataque ao crítico ou desqualificação. Na psicopatia, a crítica pode gerar raiva principalmente quando ameaça o controle, representa derrota, impede um objetivo, desafia a autoridade ou expõe uma estratégia. Da mesma forma, a agressão narcisista frequentemente responde à ferida do Ego, enquanto a agressão psicopática pode constituir um meio para atingir um fim.

 

 

6 CONCLUSÃO: ESPELHO OU INSTRUMENTO?

Narcisismo e psicopatia apresentam importantes pontos de sobreposição: grandiosidade, egocentrismo, manipulação, dificuldade de empatia, exploração e externalização da culpa. Entretanto, possuem organizações psicológicas diferentes.

Na personalidade narcisista, o núcleo encontra-se predominantemente na manutenção e proteção do self. O outro torna-se frequentemente um espelho. Na personalidade psicopática, o núcleo envolve mais profundamente frieza afetiva, baixa culpa e remorso, instrumentalização do outro e menor impacto emocional do sofrimento alheio. O outro pode tornar-se um instrumento.

O narcisista tende a perguntar: “Quem sou eu aos seus olhos?”. O psicopata tende a perguntar: “Para que você me serve?”. A personalidade madura afirma: “Eu tenho valor sem precisar ser superior a você, e você possui valor independentemente daquilo que pode me oferecer.”

A comparação entre as duas organizações exige, portanto, que comportamentos semelhantes não sejam tomados como equivalentes. Grandiosidade, egocentrismo, dificuldades de empatia, manipulação, externalização da culpa e relações assimétricas podem aparecer nos dois modos de funcionamento, mas a função psicológica desses comportamentos pode ser profundamente diferente.

 

 

REFERÊNCIAS

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