Coaching, afinal do que estamos falando?

Coaching, afinal do que estamos falando?  Dr. Antonio Maspoli INTRODUÇÃO Coaching está na ordem do dia das pessoas e das empresas. A palavra coaching é derivada do inglês coach, o qual tem suas origens ligadas à cidade de Kocs, situada no condado de Komárom-Esztergom, na Hungria. Foi utilizada pela primeira vez para designar carruagens  de quatro rodas, os  coches, os quais começaram a ser produzidos no século XVI e se tornaram as mais cobiçadas carruagens da época, por seu conforto – elas foram as primeiras a ser produzidas com suspensão feitas de molas de aço. Assim, os coches de Kocs eram chamados de kocsiszeker. Os nativos dessa cidade também são chamados de kocsi. E é desse vocábulo que proveio a palavra coach (MARQUES, 2017). Posteriormente, o nome do coach foi dado ao condutor da carruagem, o cocheiro. Com o passar do tempo, a palavra coach foi usada como uma metáfora. Do mesmo modo que a carruagem leva as pessoas aos diversos campos geográficos, o coach era a forma como se chamava o tutor que conduzia outras pessoas pelos diversos campos do conhecimento. Conta-se também que as famílias muito ricas, quando em longas viagens pela Europa, levavam servos no interior da carruagem, os quais liam em voz alta para as crianças o que elas tinham de aprender. Esse servo passou igualmente a ser chamado de coach. No século XVIII, os nobres universitários da Inglaterra iam para suas aulas, em suas carruagens, conduzidos por cocheiros – coachs. Por volta de 1830, o termo coach passa a ser empregado na Universidade de Oxford como sinônimo de tutor particular, aquele que carrega, conduz e prepara os estudantes para seus exames. Dessa forma, o termo coaching refere-se ao processo em si: o coach é aquele que conduz, enquanto o coachee, à pessoa conduzida na direção do objetivo que deseja alcançar. Como metáfora, o coach é aquele especialista que mobiliza todos os recursos, experiências, conhecimentos e habilidades do sujeito para levá-lo do ponto A, seu estado atual, ao ponto B, seu estado desejado. Ao processo que possibita essa conquista chama-se coaching. Não tem tradução na língua portuguesa. Pode-se afirmar que a história do coaching, no Brasil, é relativamente recente, porém, extremamente promissora. Se, na década de 1990 e no começo dos anos 2000, a metodologia só era aplicada em empresas estrangeiras e multinacionais, hoje o método já é uma realidade presente e acessível às pessoas, dentro e fora das organizações. Tudo isso se deu, em grande parte, pelo nascimento de empresas nacionais, focadas na formação de coaches profissionais. Nesse sentido, é possível perceber que a história do coaching, no Brasil, se confunde com a história do Instituto Brasileiro de Coaching (IBC), da Sociedade Brasileira de Coaching (SBC) e da FEBRACIS – Federação Brasileira de Coaching Sistêmico, dentre outras (MARQUES, 2017a).i E a mais recente dessas sociedades é a Sociedade Brasileira de Psicologia e Coaching. CONCEITUAÇÕES ESSENCIAIS: MENTORIA, ACONSELHAMENTO, PSICOTERAPIA, CONSULTORIA E COACHING          Com o avanço do conhecimento na sociedade da informação, houve uma superespecialização e, consequentemente, a fragmentação na abordagem da pessoa humana. Desde o surgimento da psicoterapia, no final do século XIX, até hoje, novas especialidades apareceram, daí a necessidade de aprender a distinguir as diversas formas de abordagem e mesmo compreender o papel, os limites de atuação e as possiblidades de cada uma. Dentre as principais abordagens destacamos: a mentoria, o aconselhamento, a psicoterapia, a consultoria, a análise e o coaching. 2.1 MENTORIA Considero a mentoria, na verdade, o caminho do mestre, o caminho do aprendiz, o caminho do aprendizado. Na verdade, a palavra mentoria é um nome novo, para uma prática milenar. Quando olhamos para a história e examinamos as grandes tradições religiosas do mundo, como o Budismo, o Judaísmo, o Cristianismo e mesmo o Islamismo, nós já encontramos a figura do mentor, do mestre. Mentor é aquele que anda no caminho primeiro e convida, ou aceita o seu discípulo ou os seus discípulos, para caminhar com ele no caminho caminhado. Por isso, eu concebo a mentoria como o caminho do discipulado. Mentoring é uma espécie de tutoria onde um profissional mais velho e mais experiente orienta e compartilha com profissionais mais jovens, que estão iniciando no mercado de trabalho ou numa empresa, experiências e conhecimentos no sentido de dar-lhes orientações e conselhos para o desenvolvimento de suas carreiras. Embora também possam ter um viés mais pessoal, esses ensinamentos vão ser focados na vida profissional do mentorado, ajudando-o com as principais dificuldades e barreiras que possam estar atrapalhando o seu sucesso. Isso faz com que essa metodologia seja aplicada principalmente em casos mais específicos, diferenciando-se do Coaching que tem uma abordagem mais ampla e abrangente.ii Até hoje, forma-se por meio da mentoria o xamã, o feiticeiro, o médico.  É através da mentoria que se forma o psicólogo, o analista etc.  Por intermédio da mentoria, na Idade Média, formavam-se os grandes profissionais, nas corporações de oficio. A formação se dava sob a figura do mestre e do aprendiz. O mestre e o aprendiz tornaram figuras simbólicas da arte de transmitir e receber conhecimento, ciência e sabedoria. Nesse processo, o mestre transfere para o seu discípulo, ou seus discípulos, toda a sua experiência, todo o seu saber, todo o seu conhecimento (WUNDERLICH; SITA,  2013). A mentoria, portanto, é apropriada para a formação profissional especializada. Convenhamos: como formar um analista sem um mentor? Como formar um cirurgião plástico sem um mentor? Como formar um CEO, para dirigir uma grande corporação, sem um mentor? Como formar um sacerdote, um pastor, um rabino, sem um mentor?iii  A mentoria pressupõe que existe um caminho, pressupõe que o mestre já trilhou aquele caminho e pressupõe que ele vai facilitar o outro a caminhar naquele caminho. O mestre é aquele que ensina o discípulo a caminhar com os seus próprios pés. Numa mentoria bem realizada, o discípulo vai aprender a fazer, mas vai fazer do seu jeito e, depois, pode até cantar “My Way” de Frank Sinatra: “To think I did all that, And may I say, not in a shy way, Oh no, oh no, not me, I did it my way”. (De pensar que eu fiz tudo, E talvez eu diga, não de uma maneira tímida, Oh não, não eu,  Eu fiz do meu jeito!”iv No processo de mentoria, o objetivo é transmitir conhecimento, transmitir experiência, sabedoria, know how, tecnologia.  Todavia, o mestre espera que o discípulo avance, transforme, crie, inove, e faça e aconteça melhor. Um