Fontes dos Messianismos Brasileiros

FONTES DOS MESSIANISMOS BRASILEIROS   Antônio Maspoli de Araújo Gomes   RESUMO A estrutura complexa do messianismo amplia o espaço caudal de fontes onde se deve buscar suas origens. No Brasil, o manancial de fontes messiânicas é igualmente imenso: o Judaísmo Antigo, no Velho Testamento; o Cristianismo Primitivo, no Novo Testamento; o Mito Indígena, na Terra Sem Males; o Catolicismo Ultramontano com as contribuições de Joaquim de Fiore e de Gonçalo Anes, O Bandarra; o Sebastianismo; o sonho escatológico do Padre Antônio Vieira; o catolicismo popular da Missão Abreviada; a obra piedosa do Padre Ibiapina; etc. A partir dessas contribuições, essa pesquisa apresenta as fontes dos messianismos e traçou a árvore genealógica literaria, mítica e religiosa dos messianismos brasileiros. O método de pesquisa utilizado partiu dos princípios gerais da a análise de temática proposta pela análise de conteúdo de acordo com o modelo teórico formulado por BARDIN (1977). Palavras-chave: Messianismo, Messias, Milerarismos, Religião, Antropoligia O milagre da corda A esperança é uma corda. Segundo tal rito, o oficiante – faquir, xamã… ou malabarista – lança uma corda, qual um laço. A corda eleva-se “no ar”, muito alto, sempre mais alto. Deveria cair. Mas o oficiante assegura que ela se fixou misteriosamente em algum lugar e, como prova, ele próprio ou seu discípulo sobe pela corda. A corda não se desprende. Sustenta-se, firme. E suporta o peso do homem que sobe. (Desroche 1985, p. 7) Estudos sobre Messianismo no Brasil O fenômeno messiânico (SILVA, 2006, p. 14-18) do campo religioso tem uma história recente na academia brasileira. Fenômenos como Canudos, Contestado, Pedra Bonita e Caldeirão foram pesquisados sob diversos aspectos: político, militar, social, econômico, etc. No entanto, esses fatos ainda não foram considerados sob a perspectiva da variável religiosa.                A questão religiosa quase sempre foi deixada de lado nas pesquisas, como algo de somenos importância, seja pela falta de espaço na academia para pesquisas dessa natureza, seja pela exigüidade de pesquisadores interessados neste tema. No prefácio, da 2ª edição, da obra de Maria Isaura Pereira de Queiroz, O Messianismo no Brasil e no Mundo, Roger Bastide aponta a necessidade de pesquisar e estudar o messianismo milenarista brasileiro, também sob a perspectiva da religião. No final desta Introdução, pode já ter o leitor uma noção da quantidade de     novidades que este livro apresenta, de sugestões, de demonstrações, de perspectivas; como renova problemas antigos – ao mesmo tempo em que sintetiza as contribuições mais sólidas dos predecessores. O único ponto talvez que comportaria ainda desenvolvimento, seria o aspecto religioso do messianismo (que a Autora não abordou, pois preferiu se colocar na perspectiva sociológica que o trabalho apresenta). (BASTIDE, 1976, p. XX) Essa pesquisa partiu da premissa que a variável econômica, embora relevante por si só, não é suficiente para explicar a complexidade desses movimentos que têm suas raízes na alma religiosa e mítica do povo português e brasileiro. A partir destas contribuições, essa pesquisa analisou as fontes da messianismo brasileiro e traçou a árvore genealógica mítico religiosa desses movimentos, mormente no nordeste do Brasil. A partir dessas contribuições, essa pesquisa apresenta as fontes dos messianismos e traçou a árvore genealógica literaria, mítica e religiosa dos messianismos brasileiros. O método de pesquisa utilizado partiu dos princípios gerais da a análise de temática proposta pela análise de conteúdo de acordo com o modelo teórico formulado por BARDIN (1977). A análise desses fenômenos, sob a perspectiva da religião, pode contribuir para compreender importantes movimentos sociais ocorridos no Brasil em meados do século XIX e na primeira metade do século XX, como, por exemplo, a relação entre o êxodo rural e o novo messianismo. Pretende-se, também, colaborar na inserção de aspectos relevantes na memória nacional. Tais aspectos estão relacionados à subcultura das classes sociais empobrecidas e excluídas da cadeia produtiva, e também das grandes vertentes do cristianismo tradicional, seja do catolicismo romano, seja do protestantismo histórico. “O imaginário religioso pregresso, sua exacerbação ou superação por uma nova revelação profética, está sempre presente, interpretando a realidade, postulando objetivos e indicando os meios pelos quais estes serão alcançados.” (NEGRÃO, 2009, p. 34). A história desses movimentos foi contada geralmente a partir da perspectiva dos vencedores, das elites dominantes. Tais narrativas tendem a privilegiar aspectos sociológicos importantes para a cultura dessas elites e a relegar para o segundo plano aqueles aspectos relevantes para a compreensão do fato social em sua totalidade. Essa forma de abordagem tem levado, invariavelmente, ao esquecimento e por vezes obnubila a importância desses fenômenos para a compreensão da história das minorias, ou, dizendo de outro modo, lança ao obscurantismo a história dos vencidos. Esse procedimento pode levar ao esquecimento de aspectos importantes da subcultura e dos bens simbólicos desses movimentos religiosos no caso de Canudos, a história foi contada pelos vencedores; e, na história do Caldeirão, silenciada por vencidos e vencedores. O fenômeno religioso messiânico-milenarista vem sendo pesquisado no Brasil desde meados do século XIX. Inicialmente explicado a partir de interpretações biopsicológicas e ambientalistas com Nina Rodrigues (RODRIGUES, 2006), Euclides da Cunha (CUNHA, 1966), Josué de Castro (CASTRO, 1965, s/d), dentre outros, posteriormente passou a ser interpretado a partir de variáveis sociológicas, em uma concepção do masterialismo dialético, mormente com Rui Facó (FACÓ, 1976) na obra Cangaceiros e Fanáticos e Maria Isaura Pereira de Queiroz (QUEIROZ, 1976). Maria Isaura Pereira de Queiroz elaborou uma tipologia desses movimentos. Mauricio Vinhas de Queiroz(1977) pesquisou uma das maiores revoltas camponesas da história da humanidade aconteceu numa região disputada pelos estados de Santa Catarina e Paraná no sul do Brasil. Importante também tem sido a contribuição de Renato Queiroz (QUEIROZ, 1995) para compreender o fenômeno milenarista contemporâneo, como por exemplo, o fenômeno de Catulé. Janaina  Amado, (1978) A revolta dos Mucker -conflito Social no Brasil – aborda o mais esquecido – e desconhecido – dos conflitos messiânicos brasileiros  envolvendo os Mucker,  movimento social de colonos de descendência alemã no RS, combatido e destruído pelas tropas militares do País em 1874. Diversos autores escreveram sobre os messianismos. Aqui citaremos apenas alguns. José Lins do Rego (REGO, 1939) e Rubim Santos Leão de Aquino (AQUINO, 2006, p. 18-22), dentre