O Complexo Cultural em Carl Gustav Jung
O Complexo Cultural em Carl Gustav Jung Antonio Maspoli Introdução Antes de introduzirmos o conceito de complexo cultural, precisamos estabelecer a relação entre essa teoria e a teoria dos complexos de Carl Gustav Jung (1875-1961). A teoria dos complexos desenvolvida por Jung é a base para a construção da teoria do complexo cultural. Tal teoria surgiu como resultado das pesquisas de Jung com o Teste de Reação Verbal, nos anos em que ele trabalhou no Hospital Burghölzli, em Zurique. Os nove anos que Jung passou nesse hospital foram de trabalho intenso e denso. Após a publicação da sua tese de doutorado e de alguns artigos sobre a clínica, Jung se concentrou no desenvolvimento do Teste de Associação Verbal, na busca para aproximar a sua psicologia da psicologia experimental (JUNG, 1975; 1994; 1997). O Complexo em Carl Gustav Jung O Teste de Associação de Palavras nasce das pesquisas de Jung em 1904, no Laboratório de Psicologia Experimental de Psicopatologia. Jung constrói seu estudo a partir do experimento do tempo de reação,desenvolvido por Wilhelm Wundt, em 1875 (PENNA, 2013). O teste consiste em pronunciar perante o sujeito uma série de palavras comuns previamente escolhidas e, depois, pede-se a ele para falar a primeira palavra que lhe vem à mente. Jung observava e cronometrava, com a máxima precisão possível, as emoções, os sentimentos e o tempo de reação do sujeito, diante da palavra ouvida, bem como o relato do sujeito sobre a palavra lembrada por ele. Um longo tempo de reação bem como as reações emocionais do sujeito apontavam para a existência de um complexo psicológico (JUNG, 1975). Ellenberger (1974) afirma que o Teste de Reação Verbal de Jung retoma os métodos utilizados por Galton, que empregava uma técnica semelhante para explorar os recessos mais escondidos do espírito humano. O Teste de Associação Verbal registra um aumento do tempo de reação quando a palavra tem um sentido assustador para o sujeito. Jung chamou as causas psicológicas subjacentes às reações às palavras de complexo de representação emotivamente produzido e, mais tarde, denominou esse fenômeno simplesmente complexo. O complexo jaz no inconsciente. “A experiência de associações prova eloquentemente tudo isso. Nada podemos fazer. O complexo é, por assim dizer, uma individualidade psíquica à parte, subtraída, em maior ou menor medida, ao comando hierarquizante da consciência do eu. ” (JUNG, 1975, p. 207). A metodologia de Jung era o teste de associação de palavras, e ele buscava os fatores internos que conduziam a distúrbios na função normal do ego, medidos como fluxo irrestrito de associação a uma lista de palavras de estimulo. Jung descobriu que o fluxo normal de associação do paciente era geralmente dificultado por vários afetos, daí a expressão “complexo intensificado pelo sentimento”. Quando Jung agrupou ainda essas palavras ligadas aos afetos, elas pareceram revelar um tema comum, mas esse tema decididamente não era sempre a sexualidade. (KALSCHED, 2013, p. 140). Eugen Bleuler (1911, apud ELLENBERGER, 1974) introduziu o teste de Jung em Burghölzli, para complementar os exames clínicos da esquizofrenia. Ele acreditava que o sintoma fundamental da esquizofrenia era certo relaxamento da consciência para a tensão das associações verbais e confirma as pesquisas sobre a esquizofrenia com o Teste de Associação Verbal de Jung. O objetivo principal de Jung com o Teste de Associação de Palavras foi estabelecer a direção e o sentido dos complexos, na análise. Ele distinguiu os complexos em três categorias: complexos normais, complexos acidentais e complexos permanentes. Os complexos normais são aqueles que não afetam a psique do sujeito, como por exemplo o trauma do nascimento. Os completox acidentais são aqueles de curta duração na experiencia do sujeito, como os complexos que podem ser vivenciados numa experiencia traumática e depois dissolvidos naturalmente. Já os complexos permanentes são aquqles que fazem parte da personalidade do sujeito. Na concepção de Jung, os complexos originam-se de conflitos e traumas pessoais ou coletivos. Devido a esse conflito, um determinado conteúdo é separado do ego e da consciência, permanecendo no inconsciente e nele fazendo inúmeras relações com conteúdos afetivos afins, formando uma entidade psíquica. O conceito de complexo em Carl Gustav Jung (1998) é um constructo psicológico denso. O que é, portanto, cientificamente falando, um “complexo afetivo”? É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua tonaliade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, se comporta, na esfera do consciente, como um corpus alienum corpo estranho, animado de vida própria. (JUNG, 1998, p. 99). A etiologia dos complexos encontra-se num choque emocional, num trauma, nalgum incidente análogo, ou mesmo num conflito moral etc. Em todos esses casos, a intensidade do choque emocional foi tamanha que produziu uma cisão e/ou uma dissociação do campo do sujeito. Os complexos reprimidos no inconsciente ganham vida própria e podem emergir na consciência do sujeito como se fora uma possessão (JUNG, 1974). A repressão do trauma não resolve nem absolve o sujeito do sofrimento psíquico. O trauma continua vivo e presente no inconsciente. O trauma interfere por meio da dissociação e do complexo na vida do sujeito. Memória, cognição, afetos e sentimentos podem atuar de forma segmentada e descontínua na consciência do sujeito. “Isso significa que os elementos normalmente unificados da consciência (isto é, a conscientização cognitiva, o afeto, a sensação, a imagística) não têm permissão para se integrar ” (KALSCHED, 2013, p. 31). Os complexos são grandezas afetivas autônomas de conteúdo psíquico inconsciente. Um complexo pode apresentar graus diversos de tonalidade afetiva. Quando interferem no comportamento do sujeito, os complexos podem alterar a linguagem, a memória, a afetividade e mesmo a saúde. Quem estiver sob a influência de um complexo predominante, assimila, compreende e concebe os dados novos que surgem em sua vida, em conformidade com este complexo, ao qual ficam submetidos; em resumo: o indivíduo vive momentaneamente em função do seu complexo, como se