O Conceito de Libido em Carl Gustav Jung

O Conceito de Libido em Carl Gustav Jung Antonio Maspoli de Araújo Gomes O termo libido é um dos construtos teóricos basilares da teoria psicanalítica. Inicialmente concebido por Freud como uma pulsão, instinto ou energia  de natureza iminentemente sexual, uma força instintiva específica, este conceito  foi  posteriormente reformulado para incluir em sua definição   duas pulsões vitais: eros e tanatos. Eros seria a  energia ou princípio da vida  e tanatos pulsão de morte. No entanto mesmo com esta modificação não há dúvida entre os freudianos e neofreudinaos  de que a libido é uma energia de natureza puramente sexual. Jung, contudo, rompe com a concepção pansexualista de Freud, com a publicação da obra Wandlungen und Symbole der Libido ( Transformações e Símbolos da Libido), publicado em 1911/1912. Nesta pesquisa ele expõe o curso do desenvolvimento da libido na evolução da esquizofrenia, desde a sua etiologia,  até a dissociação completa. Neste texto  Jung ampliou o conceito de libido para designar a energia psíquica em geral presente em toda a natureza. A elasticidade deste conceito compreende não apenas a energia do psiquismo humano, inclusive aquela de natureza sexual, mas abarca também a própria energia do universo, a alma mundi. “Como conceito aplicado de energia logo se hipostasia nas forças( os institntos, os afetos e outros processos dinâmicos), o seu caráter concreto pode ser expresso adequadamente,a meu ver, pelo vocábulo libido’,pois concepções semelhantes se utilizaram de denominações parecidas, desde tempos remotos, tais como a vontade de Schopenhauer, a arque de Aristóteles, o eros de Platão, o amor e o ódio dos elementos  de Empédocles ou élan vital de Bérgson. (Jung, 1998, p. 28). Esta nova concepção de libido rompe com o pansexualismo freudiano e inaugura o panpsiquismo que dominará a psicologia analítica numa perspectiva pan energética. O novo conceito de libido formulado por Jung em 1912, calcado no neoplatonismo e no idealismo alemão, abrange todos os fenômenos de natureza energética existente no universo. Desta energia Jung  deriva os  conteúdos da bioenergia ou energia vital. Esta seria a base da energia psíquica que circula pelo sistema nervoso central e periférico. “O conceito de energia vital, entretanto, nada tem a ver com uma denominada força vital, pois, enquanto força, esta nada mais seria do que a forma específica de uma energia universal e, deste modo, estaria eliminada a pretensão a uma bioenergética, em oposição a uma energética física, sem se reparar no abismo, até agora então preenchido, entre o processo psíquico e o processo vital. Propus que a energia vital hipoteticamente admitida fosse chamada libido, tendo em vista o emprego que tencionamos fazer dela em psicologia, diferenciando-a, assim, de um conceito de energia universal conservando-lhe, por conseqüência, o direito especial de formar seus conceitos próprios. Fazendo isso, não tenho a menor intenção de adiantar-me dos que trabalham no campo da bioenergética, mas tão somente dizer-lhes com toda a franqueza que empreguei o termo libido em vista do uso que dele faremos em nosso estudo. Para seu uso, esses estudiosos poderão propor, se o quiserem, os termos bioenergia ou energia vital.”  (Jung, 1998, p. 16): Com esta reformulação do conceito de libido estava posto o machado à raiz da árvore psicanalista. A libido não se aplica somente aos conteúdos de natureza puramente sexual,  amplia-se para incluir todos os aspectos da natureza humana: a mente,  o corpo, a linguagem, a sexualidade, a alimentação,  o mito, a religião, a arte, os jogos, o trabalho, o amor, ódio, e todas aquelas atividades humanas ligadas a cultura. O materialismo freudiano não poderia admitir este novo postulado e o rompimento entre Freud e Jung estava consumado. “Ao perceber no Id o instinto de individuação que busca a totalidade, a criatividade de Jung transbordou a moldura materialista pansexual da psicanálise. Em 1912, Jung publicou o livro Símbolos de  Transformações, no qual expandiu o conceito de libido para torná-lo sinônimo de energia psíquica, expressão de todo e qualquer símbolo e não somente da sexualidade. Significativamente, o último capítulo desse livro intitula-se  o sacrifício, onde Jung demonstra que a transição de um símbolo para outro é uma vivência que inclui a perda emocional do que passou. Como grande intuitivo que era, Jung certamente previu que sua nova concepção da libido seria incompatível com a presidência da Sociedade psicanalítica Internacional e, pior ainda, com sua filitude científica de Freud. O inevitável aconteceu. O filho cresceu mais que o pai, daí em diante caminhou sozinho para fundar sua própria psicologia analítica, centrada na realização arquetípica da personalidade.” Byington(2005, p. 8): Birman,(2005) aponta outros aspectos responsáveis pelo rompimento entre Freud e Jung: a rivalidade científica entre os dois; a concepção jungiana sobre o delírio na esquizofrenia como transformação da libido e não somente como  expressão da sexualidade proposta por Freud; as críticas de Jung ao método psicanalítico da livre associação verbal, que segundo este, levaria a dissociação e não a cura e o conceito de libido. Este pesquisador, contudo, sustenta  com Byington,(2005) que afirma que no epicentro da cisão entre Freud e Jung existe uma questão epistemológica: Freud era filosoficamente materialista,portanto, ligado a tradição aristotélica  e Jung, idealista, neoplatônico. Freud construiu sua teoria sobre o pressuposto aristotélica que  prefigurava a mente humana como uma tábula rasa. Este conceito encontra-se na base da conceituação do inconsciente freudiano, que em linhas gerais não passava de uma espécie de  quarto de despejo para o repositório das repressões sexuais infantis ocorridas antes da dissolução do Complexo de Édipo. Jung, por seu turno construiu sua teoria sobre o edifício platônico e agostiniano dos arquétipos que reafirmava em nível psicológico a possibilidade do conhecimento a priori.            . Na concepção de Jung os processos psíquicos são representações da energia universal que se acham gravadas no espírito humano desde tempos imemoriais através das representações coletivas as quais ele denominou. arquétipos. Observa-se que  muito do que primitivamente designava-se por espírito, daimon, ou númen não passa de representações pré-animistas desta energia. Jung admite a existência de uma estrutura de estreita causalidade psíquica, de sorte que a energia psíquica aparece, nas suas concepções, como uma quantidade constante, suscetível, entretanto, de se  transformar e de se deslocar no tempo e no espaço, obedecendo ao princípio físico da entropia. No tempo, a libido tanto pode ter uma ação regressiva, voltada para o passado quanto teleológica, direcionada para