O Corpo Como Sombra No Protestantismo Brasileiro

O Corpo Como Sombra No Protestantismo Brasileiro Antonio Maspoli de Araujo Gomes Historicamente ligado a Santo Agostinho, Martin Lutero era um agostiniano, (1968)1 o protestantismo adotou em relação ao corpo o postulado da Patrística de que o cerne e a origem do mal é a carne. Carne aqui identificada com o corpo humano. A carne no protestantismo é identificada naturalmente com o corpo humano. O corpo naturalmente inferior ao espírito, deve ser subordinado ao espírito. E para isso deve ser reprimido. No protestantismo a repressão do corpo ocorre naturalmente por meio da identificação do corpo com o Templo do Espírito Santo. A repressão ocorre também por meio do controle e da regulação do corpo. O resultado dessa repressão do corpo é a ascese e a racionalidade, o espirito protestante weberiano ( 2004 )2. Este artigo pretende relacionar as imagens do corpo protestante com o corpo da patrística. Compreender o corpo como sombra no protestantismo. E demonstrar que, se pela via positiva, a ascese produz a ética protestante do trabalho; pela via negativa, o resultado da repressão do corpo pode gerar distorções éticas e psicológicas: a depressão, a perversão, a compulsão e até distúrbios psicossomáticos. O cristianismo nasce de um corpo paradoxal para o entendimento humano. O corpo morto do Cristo na cruz e o corpo ressuscitado de Jesus. O primeiro é um corpo inerte, sem vida, sem valor humano. O segundo, um corpo em transformação, glorificado que depende fundamentalmente da fé cristão para ser apreendido. Esse paradoxo do corpo nas origens da fé cristã haverá de marcar toda a compreensão posterior do corpo humano no cristianismo e o lugar sombrio que esse corpo ocupa nos últimos dois mil anos. A fim de ser transformado o corpo deve ser subjugado e reprimido em nome de causas e objetivos espirituais superiores que devem ser alcançados ainda nesta vida para se garantir as bem aventuranças. “O corpo humano vive a dois mil anos a sombra da cultura ocidental. Seus impulsos animais, suas paixões sexuais e sua natureza perecível foram banidos para a escuridão e transformados em tabu por um clero que só dava valor aos domínios mais elevados do espírito e da mente e ao pensamento racional”( ZWEIG e ABRAMS, 2014, p. 105. )3 O conceito chave, oriundo da psicologia junguiana,utilizado para desenvolvermos deste trabalho numa abordagem do corpo como sombra no protestantismo é a sombra. (GAMBINI. 2000. P. 27). No Sermão da Montanha, em Mateus 7;1-54 Jesus Cristo diz: “Não julgueis para não serdes julgados. Pois com o julgamento com que julgais, sereis julgados; e com a medida com que medirdes, sereis medidos. Por que reparas no cisco que está no olho do teu irmão, quando não percebes a trave que está no teu? Como poderás dizer ao teu irmão: ‘Deixa-me tirar o cisco do teu olho’, quando tu mesmo tens uma trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás bem para tirar o cisco do olho do teu irmão”. Roberto Gambini (2000)5 reconhece neste texto as origens embrionárias da projeção. “Jung afirma que ‘a projeção é um dos fenômenos psíquicos mais comuns. (…) Tudo o que é inconsciente em nós mesmos descobrimos no vizinho’. Na verdade, a projeção é um fato que ocorre de modo involuntário, sem nenhuma interferência da mente consciente: um conteúdo inconsciente pertencente a um sujeito (indivíduo ou grupo) aparece como se pertencesse a um objeto (outro indivíduo ou grupo ou o que quer que seja, desde seres vivos até sistemas de ideias, a natureza ou a matéria inorgânica) ”(GAMBINI, 2000, P. 28)6. Imaginemos um campo de luz, relativamente recente, e um campo sombrio, muito anterior ao primeiro. O dinamismo da relação peculiar entre esses dois campos é dado pelo fato de que o campo sombrio quer ser reconhecido e o faz pela via indireta da projeção. Ocorre que a intensidade de uma projeção é inversamente proporcional à abertura da atitude consciente. Se a consciência combater obstinadamente a emergência de um conteúdo inconsciente, este poderá recorrer a medidas drásticas para ser reconhecido. A projeção é inconsciente e involuntária, independe da vontade do sujeito. Sempre que o homem se depara com os conteúdos inconscientes e perturbadores da sua psique ele se utiliza do mecanismo da projeção para diminuir seu sofrimento e a sua ansiedade. Segundo Jung, tudo o que é obscuro – e precisamente por ser obscuro – é um espelho: ‘Tudo o que é desconhecido e vazio está cheio de projeções psicológicas; é como se o próprio pano de fundo do investigador se espelhasse na escuridão. O que ele vê no escuro, ou acredita poder ver, é principalmente um dado de seu próprio inconsciente que ali se projeta. Em outras palavras, certas qualidades e significados potenciais de cuja natureza psíquica ele é totalmente inconsciente9GAMBINI, 2000, p. 28)7. O que devemos ter em mente é que as projeções ocorrem involuntariamente. No linguajar comum, diz-se que alguém está projetando, como se isso implicasse uma ação consciente. Não é o ego que projeta; é o inconsciente que se projeta. Esse fato natural se dá porque tudo o que é desconhecido no plano exterior constitui uma espécie de eco do desconhecido interior. Quanto aos fatores que desencadeiam a projeção podemos apontar especialmente os complexos (isto é, conteúdos psíquicos autônomos). Os complexos são uma experiência vivida por todos nós e seu efeito desintegrados sobre a consciência manifesta-se quando os mesmos se tornam um sistema psíquico separado, autônomo em relação a consciência do sujeito e fragmentário. Um complexo é um conjunto de ideias e imagens de conteúdo afetivo, que se dissociou da consciência por um trauma psicológico e/ou por um conflito moral. Um complexo é autônomo e inconsciente, em termos psicológicos, o que significa dizer que age independentemente da vontade do sujeito. O complexo possui o indivíduo e não o contrário. Daí facilmente confunde-se um complexo com uma possessão. Os complexos, por serem autônomos e inconscientes, não estão sujeitos à vontade do sujeito. Daí a força que carregam. E quanto mais o sujeito luta contra um complexo, tanto mais esse se fortalece, como quando ocorre