O Simbolismo da Ceia do Senhor

Antonio Maspoli   Introdução A Ceia do Senhor ou Santa Ceia como tornou-se conhecido o ritual do partir o pão e tomar o vinho no protestantismo já foi estudada exaustivamente do ponto de vista teológico.  Para uma compreensão teológica da Ceia do Senhor remetemos o leitor aos abalizados autores a seguir: São Mateus (MATEUS 26:26-30); Tillich (TILLICH, 2007, p. 163); Klein (KLEIN, 2005, p. 29); Berkhof (BERKHOF, 1992, p. 226), Lutero (LUTERO, 1993, p. 227); Calvino (CALVINO, 2006, p. 141); Hodge(HODGE, 1877; 2001).  Sob a perspectiva psicológica nem tanto. Carl Gustav Jung não pesquisou a Ceia propriamente dita. Seus estudos focaram-se mais na compreensão dos fatores que levaram um ou outro teólogo em direção a esta ou aquela interpretação sobre a Ceia.  O pensamento psicológico de Jung sobre a Ceia do Senhor é embasado teologicamente. Jung apresenta inclusive um resumo histórico das quizílias teológicas que dividiram a Igreja Cristã em torno do debate sobre a Santa Ceia. O dogma da transubstanciação é um dogma tardio, que aparece sob a égide do Sacro Império Romano Germânico já no século XI da era cristã (JUNG, 1991, pp. 27-39) O autor da transubstanciação é o Abade Pascásio Radberto “com um escrito sobre a ceia cristã, onde defendia a doutrina da transubstanciação, isto é, afirmava que o vinho e a hóstia, na comunhão, se transformavam no verdadeiro sangue e verdadeira carne de Cristo” (JUNG, 1991, p.38).  Radberto foi contestado por Sscoto Erígena, filósofo e teólogo, que “era de opinião de que a ceia nada mais representava do que uma recordação da última ceia que Jesus celebrou com os discípulos, o que aliás, toda pessoa razoável vai pensar em qualquer tempo (JUNG, 1991, p. 30). Aqui Jung coloca sua posição na boca de Sscoto Erígena e generaliza. Jung protestante, também não acreditava no dogma da transubstanciação. A doutrina protestante sobre a ceia difere da doutrina católica da transubstanciação. A Reforma Religiosa do XVI século redimensionou a controvérsia sobre a Ceia do Senhor no debate travado entre Martin Lutero, João Calvino e Ulrico Zuínglio, em alemão Ulrich (ou Huldrych) Zwingli. Jung focaliza em sua pesquisa especialmente a controvérsia entre Martin Lutero e Zuínglio sobre a Santa Ceia. A doutrina da transubstanciação foi sancionada pelo Concílio de Latrão em 1215. Lutero fora criado nesta crença e tradição. Era lhe penoso romper com este dogma. A reforma protestante, contudo, exige uma nova interpretação da ceia.  Temeroso de romper com a Igreja ele propõe uma fórmula conciliatória. Não conseguia se libertar dos aspectos sensoriais da Ceia. “Defendia portanto, a presença real de Cristo na ceia. Para Lutero o cristão recebia “no e sob o pão e o vinho, o corpo e o sangue de Cristo” (JUNG, 1991, p. 74). Esta doutrina luterana sobre a ceia do senhor recebeu o nome de consubstanciação. “Segundo a chamada doutrina da consubstanciação, está realmente presente, além da substancia do pão e do vinho, também a substância do corpo sagrado” (JUNG, 1991, p. 74). reagiram Calvino e Zuínglio. Lutero procurou refutar os argumentos contrários a sua doutrina com a doutrina da onipresença ou volipresença de Deus. Doutrina esta que afirma que Deus está presente em toda parte, logo esta presente também no pão e no vinho da ceia do Senhor. Essa afirmativa de Lutero “queria conservar a realidade da impressão sensória e de seu específico valor sentimental”no ritual da ceia (JUNG, 1991, p. 75). A posição de Lutero suscita debate e oposição. A igreja que emerge da reforma se pretende e se afirma evangélica. A centralidade de o culto protestante estar na Palavra de Deus. Da forma como Lutero colocou a questão da ceia dava a entender que o centro do eixo litúrgico deixava de ser a Palavra. A ceia poderia ocupar o lugar central da celebração protestante. Zuínglio reage. “Em oposição ao ponto de vista de LUTERO, defendia ZUÍNGLIO uma concepção puramente simbólica. Segundo ele, tratava de uma recepção ‘espiritual’ do corpo e sangue de Cristo. Este ponto de vista se caracteriza pela razão e por uma concepção ideal da cerimônia.” (JUNG, 1991, p. 75). O princípio evangélico preservado por Zuínglio em sua concepção da ceia do senhor, para Jung era a Palavra de Deus (JUNG, 1991, p. 75).  Jung não escreveu nenhuma leitura psicológica da Ceia do Senhor, escreveu sobre a Missa. O simbolismo da Santa Missa (JUNG, 1988, 205-216). A obra retrata o mistério da missa de um ponto de vista puramente fenomenológico.  Não aborda, portanto, aspectos teológicos, uma vez que as realidades da fé ultrapassam o domínio da Psicologia. A psicologia não pode asseverar juízo de valor sobre os elementos espirituais físicos da Ceia. O seu campo de atuação é limitado. Foca-se nas conseqüências da Ceia sobre aqueles que dela participam. O rito da missa é, em cada uma de suas partes, um símbolo. Símbolo, neste caso não se refere meramente a um sinal arbitrário e intencional de um fato conhecido e compreensível, mas sim a uma expressão de caráter antropomórfico e por isso mesmo vivo, válido apenas em certas condições. O símbolo é na verdade a melhor expressão possível de um mistério, mas está muito abaixo do nível do mistério que significa. A missa, portanto, é um símbolo antropomórfico, de algo sobrenatural, e que ultrapassa a capacidade de compreensão do homem, o seu simbolismo também pode ser objeto de investigação da Psicologia. “Enquanto o símbolo for vivo, é a melhor expressão de alguma coisa. E só é vivo enquanto cheio de significado. Mas, uma vez brotado dele, isto é, encontrada aquela expressão que formula melhor a coisa procurada, esperada ou pressentida do que o símbolo até então empregado, o símbolo esta morto, isto é, só terá ainda significado histórico. “(JUNG, 1991, p. 444). Tomando como modelo a interpretação psicológica realizada por Carl Gustav Jung (JUNG, 1988) sobre o sacrifico da missa esta pesquisa fará uma interpretação psicológica do ritual da Santa Ceia na tradição protestante calvinista. Não se pretende interpretar a Santa Ceia, nem em termos exegéticos e, nem em sentido teológico. A Ceia será considerada somente quanto aos seus conteúdos puramente psicológicos os quais podem ou não ser evocados