O TRANSE ERICKSONIANO Dr. Antonio maspoli FUNDAMENTOS PSICOLÓGICOS DO TRANSE ERICKSONIANO INTRODUÇÃO Milton Hyland Erickson viveu de 1901 a 1980. Médico, psiquiatra e psicólogo, nascido no dia 5 de dezembro, na cidade de Aurum, Nevada (EUA), até hoje é considerado uma das maiores autoridades mundiais em hipnose aplicada à Psicoterapia e à Medicina. Foi o criador da Hipnose Moderna Ética e Científica, e da Psicoterapia Breve Estratégica (MARQUES, 2018a, p. 69-71). Em 1960, Milton Erickson fundou a American Society of Clinical Hypnosis, onde ministrava cursos sobre o tema. Nessas aulas, Erickson ensinava a hipnose clássica, mas já disseminava algumas de suas ideias inovadoras. A aceitação e a identificação automática com as suas abordagens eram tantas que logo seus primeiros discípulos médicos e psicólogos o estimularam a divulgar ainda mais o seu trabalho. Com o incentivo, Erickson passou a publicar livros e artigos sobre seus próprios pensamentos a respeito da hipnoterapia. Com a ajuda de alguns discípulos, a produção, em seguida, ultrapassaria três centenas de publicações, entre 1950 e 1980. Em 1980, Milton Erickson faleceu, mas sua contribuição para área da saúde fora premiada. Os mesmos alunos que o incentivaram a publicar suas ideias fundaram, com a família, The Milton Erickson Foudantion, em Phoenix, Arizona (EUA). Trata-se de uma entidade sem fins lucrativos, a qual hoje conta com mais de cento e vinte filiais ao redor do mundo, ensinando e divulgando as abordagens ericksonianas para as áreas da saúde e da educação (MARQUESb, 2018, p. 69-71). O transe ericksoninano difere do transe hipnótico clássico, posto que, para Erickson, qualquer estado singular de atenção altamente concentrada é, de fato, um transe. Ericksoni parece passar uma mensagem confusa, quando afirma que a pessoa ou está em transe ou não está. Se a pessoa está em transe, ela está disponível para sugestões hipnóticas: Milton Erickson observou que o transe hipnótico ocorria em cada um de nós, de forma espontânea, todos os dias de nossas vidas. Todas as vezes que nós estamos em um estado altamente focado de atenção, nós estamos em transe. Nesse estado, que, na verdade é um fenômeno natural podemos absorver ou receber informações extremante profundas, em muitos níveis diferentes. Nesse estado também nos tornamos capazes de acessar a riqueza das nossas informações, história, crenças e sabedoria interiores para instigar e integrar o autodesenvolvimento e mudanças duradouras. (ADLES, 2015, p. 16). Milton Erickson (1989) acreditava que todo mundo podia entrar em transe, e não sentia que os vários estágios do transe (leve, médio, profundo ou sonambulismo e pleno), como discutidos pela hipnose clássica, se aplicavam ou eram algo necessário para se fazer o trabalho hipnótico. Ou se está em transe ou não. E, mesmo assim, ele ainda falava com frequência em aprofundar o estado de transe. O que ele queria dizer? Ao aprofundar, são dadas sugestões que ajudam o cliente a focar mais e mais a atenção internamente, e prestar menos e menos atenção ao mundo externo, para facilitar que o cliente se torne mais conectado ao seu mundo e recursos interiores. Para certos tipos de transe, como a regressão de idade, ele sugeria que o cliente fosse levado não a um estado de transe mais profundo, mas a um transe mais completo. Ele não concebia que estados mais profundos fossem relevantes, todavia, que os estados de transe mais completos aumentavam, certamente, a efetividade de certos tipos de intervenções. Aprofundar, portanto, se refere a criar um transe mais completo, um estado mais focado internamente. Nenhum transe jamais é “completo”, na medida em que isso excluiria o eu observador (observing self), e o cliente perderia a habilidade de escutar e de se comunicar consigo mesmo e com outrem. Erickson sentia que cem por cento da população é capaz de entrar em transe, uma vez que todos nós temos entrado em transe sozinhos, durante anos. (A hipnose clássica proclama que apenas cerca de dez por cento da população responde ao transe). Na concepção de Erikson, transe é um estado natural da mente. Quando alguém nos dá aquele abraço, enquanto olhamos fixamente a xícara de café, em algumas manhãs, nós estamos em transe. Quando nos sentamos para trabalhar em nosso computador por poucos minutos e levantamos o olhar, uma hora mais tarde, nós estávamos em transe. Nós conduzimos os clientes ao transe, na medida em que eles já têm uma grande quantidade de prática e sabem como fazer isso. Eles já sabem como focar a atenção e, portanto, como entrar em transe. Nós apenas conduzimos e, uma vez que é o cliente quem está decidindo seguir nossa condução, toda hipnose é, de fato, auto-hipnose. “Portanto, todos os estados de transe são considerados auto-hipnóticos.” (ADLER, 2015, p. 16). Quando você usa o transe conversacional, seu cliente ou audiência são conduzidos a um transe menos completo. Todavia, quando você usa o transe formal, olhos fechados, relaxamento e uma indução tradicional, você está criando e conduzindo a pessoa ou grupo a um transe mais completo. Uma vez em transe, o aprofundar pode fazer com que o estado de transe fique ainda mais completo. Para a maior parte do trabalho a ser feito, apenas o estado de transe é necessário, de sorte que, na verdade, isso tem pouca relevância. Neste exemplo, a indução é feita de uma maneira semelhante a uma conversa informal, utilizando os conceitos acima, partindo de pressuposições (“não sei se você alguma vez foi hipnotizado antes”), o que pressupõe que o sujeito será hipnotizado, divisão (inconsciente e consciente), evocações (“você esteve em estados hipnóticos antes e não sabia”), intercalações (intercalando palavras, como “relaxamento, confortável”) permissão (com as palavras você pode, e/ou, enquanto) e emprego de palavras que se referem aos canais sensoriais visual, auditivo e somático. Se possível, sabendo-se qual o canal sensorial preferido do sujeito, pode-se iniciar por esse canal e depois passar para os outros que não são muito usados por ele. Essa simples manobra já pode provocar um estado alterado de consciência (MARQUES, 2018a, p. 69-71). PRINCÍPIOS PSICOLÓGICOS NA OBRA O HOMEM DE FEVEREIRO Milton Erickson não é considerado um grande teórico da Psicologia. Não