Trauma Transgeracional em Sigmund Freud e Carl Gustav Jung

Trauma transgeracional nas diferentes abordagens – analisa o trauma histórico na Psicologia Cognitiva a partir da apreensão do conceito de desamparo aprendido; avalia o trauma histórico transgeracional no pensamento de Sigmund Freud, especialmente sobre o complexo de Édipo; e fundamenta-se nas concepções de Carl Gustav Jung; na neurociência e epigenética, sobretudo nas pesquisas de Rachel Yehuda et al. (2015). Finalmente, as teorias são analisadas quanto à sua relevância, consistência e aplicabilidade no campo. Publicado em: 10/02/2021 Trauma Transgeracional em Sigmund Freud e Carl Gustav Jung Antonio Maspoli Introdução Trauma transgeracional nas diferentes abordagens – analisa o trauma histórico na Psicologia Cognitiva a partir da apreensão do conceito de desamparo aprendido; avalia o trauma histórico transgeracional no pensamento de Sigmund Freud, especialmente sobre o complexo de Édipo; e fundamenta-se nas concepções de Carl Gustav Jung; na neurociência e epigenética, sobretudo nas pesquisas de Rachel Yehuda et al. (2015). Finalmente, as teorias são analisadas quanto à sua relevância, consistência e aplicabilidade no campo. Trauma Transgeracional em Sigmund Freud No texto “Totem e Tabu”, publicado em 1913-1914, Sigmund Freud (2006a) utilizou-se dos levantamentos feitos por Frazer (1980), na obra “Um ramo de ouro”, sobre a religião totêmica indoeuropeia, com isso, procura conciliar suas teorias psicológicas, especialmente quanto à origem do complexo de Édipo, com base nnaquilo que observou   em sua clínica psicológica, com o comportamento daqueles povos ditos primitivos pesquisados na biblioteca por Frazer. Freud comparou tais dados com os fatos observados em seus próprios pacientes – isso tudo ainda à época da Primeira Tópica. A partir desse estudo e de suas suposições, Freud admite coincidências com a estrutura da personalidade do homem atual. Entre essas coincidências citamos  a teoria edipiana, os conceitos de culpa e outros. O primeiro ensaio do livro “O Horror ao Incesto” trata do tema demonstrado no título. A pesquisa sobre a origem desse horror é realizada através dos totens e tabus das sociedades ditas primitivas. Freud afirma que os totens e tabus ainda existem, em nossa sociedade, sob forma psicológica. Se os totens e, principalmente, os tabus existem, e de maneira mais objetiva na infância, pode-se supor que ou foram criados na infância ou foram transmitidos pela cultura. Não nos deteremos aqui descrevendo essas sociedades totêmicas, passando diretamente as conclusões  que Freud extraiu delas: a) a sociedade totêmica tem por objetivo a exogamia (proibir o incesto); b) o ritual totêmico visa à manutenção desse estado; as evitações complementam as restrições de relação sexual, pois alguns casos não se encaixam nas proibições totêmicas, mas são igualmente indesejados pela sociedade; c) em geral, as proibições totêmicas ocultam o sentido de serem dirigidas essencialmente ao filho homem; d) há a generalização do horror ao incesto naquelas sociedades; e) se há tanta proibição, deduz-se que há muito desejo de fazer o proibido; f) esse horror ao incesto é uma característica essencialmente infantil nos dias de hoje; g) esse comportamento é igual ao da vida psíquica de um neurótico (infantilismo); h) o comportamento de o menino sentir-se atraído pela mãe e irmã é corrigido pela resolução do Complexo de Édipo; i) Essa resolução funda-se na rejeição e repressão que o ser humano faz aos primitivos desejos. Os desejos primitivos do homem mantêm-se atualmente sob forte repressão. A repressão é a base da cultura. É o preço que o homem paga para ser civilizado. A conclusão óbvia, em decorrências desses postulados, é que a neurose é comum a todos nós.  Freud explica a continuidade do totem e especialmente dos tabus, pela transmissão intergeracional da psique coletiva, por intermédio da cultura. Ninguém pode ter deixado de observar, em primeiro lugar, que tomei como base de toda minha posição a existência de uma mente coletiva, em que ocorrem processos mentais exatamente como acontece na mente de um indivíduo. Em particular, supus que o sentimento de culpa por uma determinada ação persistiu por milhares de anos e tem permanecido operativo em gerações que não poderiam ter tido conhecimento dela. Supus que um processo emocional, tal como se poderia ter desenvolvido em gerações de filhos que foram maltratados pelos pais, estendeu-se a gerações novas livres de tal tratamento, pela própria razão de o pai ter sido eliminado. (FREUD, 2006a, p. 159). Freud utiliza o termo psique coletiva para explicar, desse modo, a continuidade, geração após geração, de certas proibições, como a proibição de parricídio, canibalismo e incesto. Anne Schützenberger (1993) afirma que Freud empregava a expressão psique coletiva para fundamentar sua teoria da transmissão intergeracional da regra da proibição do incesto, do horror que essa regra produz. A proibição do incesto é a base para a construção da teoria do Complexo de Édipo (SCHÜTZENBERGER, 1993, p. 17-18). “Uma tal compreensão inconsciente de todos os costumes, cerimônias e dogmas que restaram da relação original com o pai pode ter possibilitado as gerações posteriores receberem sua herança de emoção. ” (FREUD, 2006a, p. 160). E prossegue: Uma reflexão mais demorada, contudo, demonstrará que não estou só na responsabilidade por esse audacioso procedimento. Sem a pressuposição de uma mente coletiva, que torna possível negligenciarmos as interrupções dos atos mentais causados pela extinção do indivíduo a psicologia social em geral não poderia existir. A menos que processos psíquicos sejam continuados de uma geração para outra, ou seja, se cada geração fosse obrigada a adquirir novamente sua atitude para com a vida, não existiria progresso nesse campo, e quase nenhuma evolução. Isso dá origem a duas outras questões; quanto podemos atribuir a quantidade psíquica na sequência das gerações? Quais são as maneiras e meios empregados por determinada geração para transmitir seus estados mentais à geração seguinte? (FREUD, 2006a, p. 159). A transmissão intergeracional em Freud origina-se desses tabus ou desejos proibidos até hoje. Ele afirma que a espécie humana mantém impressões do passado distante, como traços de memória, e que há uma espécie de herança comum transmitida pela cultura. Com esse pressuposto, Freud assinala que o Complexo de Édipo, o medo da castração e a culpa que provocam várias neuroses modernas têm sua origem nos primórdios das hordas. Os jovens machos expulsos se rebelam contra a autoridade do velho macho da tribo, matando-o e redistribuindo as