O Pensamento de João Calvino e a Ética Protestante de Max Weber, Aproximações e Contrastes
Resumo: O homem contemporâneo geralmente atribui a origem da ética protestante de Max Weber a teologia de João Calvino. Neste artigo o autor compara as principais categorias teológicas do pensamento de João Calvino com a ética protestante de Max Weber, demonstrando que o advento do capitalismo moderno é um processo posterior a Reforma Protestante do século XVI, produto talvez da cultura protestante norte-americana e explicitando as aproximações e contrastes que se verificam na obra de Calvino e Weber no campo da ética do trabalho. Palavras Chaves: teologia, sociologia da religião, ética, protestantismo. Esboço esquemático da vida e obra João Calvino Lessa, (s.d.) traçou uma importante biografia de Calvino que passamos a considerar em nosso trabalho Além de outros autores. João Calvino nasceu em meio a uma teocracia. Nascido na cidade de Noyon, na França, aos 10 de julho de 1509, o que era então uma pequena cidade eclesial, dominada por sua catedral e seu bispo: desde o nascimento ele já teve o conhecimento e a experiência do significado de um governo de uma sociedade dominada pelo clero e exercido em nome de Deus. Além do mais seu pai, Gerard Chauvin, era secretário do bispo e ao mesmo tempo era fiscal de condado, o que lhe dava condição econômica privilegiada para os padrões da época. Calvino, comparado aos critérios contemporâneos, teria nascido na classe média, pertencia à burguesia. Calvino perdeu sua mãe ainda muito cedo e este fato marcou profundamente a sua personalidade. Esta perda produziu um Calvino circunspecto, introvertido, fechado dentro de si mesmo, dono de uma riquíssima vida interior que mercê do Espírito Santo de Deus, produziu uma espiritualidade profunda e cautelosa. Tendo Gerard Chauvin ficado viúvo muito cedo (João Calvino era ainda muito jovem quando isto aconteceu) casou em segundas núpcias e acreditam alguns historiadores que muito da sobriedade de Calvino adviesse de uma estrita educação imposta pela sua madrasta, uma mulher refinada. Três dos seus irmãos foram consagrados por Gerard Chauvin ao sacerdócio, numa tentativa de melhorar o patrimônio da família haja vista que na idade média as riquezas pertenciam ao clero e a nobreza. Um dos irmãos de Calvino, Charles, veio a se tornar um herético e morreu recusando-se receber os sacramentos depois de haver se tornado um clérigo em Noyon. Pouco antes de morrer foi excomungado pela Santa Sé. Somente seu irmão mais novo, Antonie, e uma de suas duas meio-irmãs, Marie, adotaram a fé Protestante de Calvino e mais tarde o seguiriam para Genebra. Calvino latinizou o nome da família Chauvin para Calvinus de onde veio mais tarde dar no francês Calvin. Irwin (1947) registra que Calvino estudou em Noyon depois, aos 14 anos de idade, foi enviado por seu pai a Paris, aonde viria estudar na Universidade de Paris. Ele se matriculou no famoso Colige de la Marche, onde ensinavam ilustres professores, como o latinista Mathurin Cordier e que viria mais tarde passar os seus últimos anos na companhia de seu ex-pupilo em Genebra. Dali ele passou para o ainda mais famoso Collége de Montaigu, aonde viria encontrar alguém que teria uma profunda influência na sua vida acadêmica que exercia uma forte influência sobre todo o corpo docente da escola, o intelectual conservador, Noel Beda. Ainda que mais tarde Calvino viesse a se afastar do conservantismo de Beda aprendeu com ele, em suas aulas de lógica, a grande arte da argumentação, que iria expressar em todo seu esplendor, na sua obra teológica. Registra-se que uma crise entre seu pai e a igreja ajudou nesta mudança que foi precipitada por uma disputa financeira entre seu pai e a catedral de Noyon, tendo o mesmo, mais tarde, sido também excomungado pela Igreja Católica Apostólica Romana. Convém destacar que no mesmo ano de 1528, em que Calvino deixou a Montaigu, lá chegou àquele que viria ser seu mais austero rival, Inácio de Loyola, o fundador da Companhia de Jesus e um dos maiores estimuladores da Contra Reforma. Ao mesmo tempo em que estudava Direito em Orleans, estudava grego com Melchior Wolmar, um alemão de tendência luterana, e assim vislumbrou a possibilidade de se tornar um humanista. Com a morte de seu pai, porém, em 1531, após completar o seu doutorado em Direito, ele dedico-se de corpo e alma ao estudo de línguas e de literatura, tendo, como conseqüência de seus dois novos interesses, a literatura e as idéias do florescente luteranismo. Ainda não se conhece no Brasil a influência de Lutero sobre Calvino. Em 1532, Calvino publica o seu primeiro livro, um comentário à obra De Clementia de Sêneca, este livro, Calvino já procurava induzir o Rei Francisco I a exercer clemência para com os protestantes da França. Segundo um dos seus maiores estudiosos; na contemporaneidade, John T. Macneill, esse livro tinha como intenção induzir o Rei Francisco I, a exercer clemência para com os Protestantes da França. Calvino demonstrava neste seu trabalho uma óbvia simpatia para com a causa Protestante, mas a oportunidade deveria forçar um pouco as coisas de modo que, um amigo íntimo de Calvino, Nicolas Cop, foi nomeado reitor da Universidade de Paris em 1553, e o seu discurso de posse recheado de críticas aos censores da Sorbonne, com citações que começavam com Erasmo, passando pela Doutrina Luterana da Justificação pela Fé, terminava com um veemente apelo para uma maior tolerância em relação às novas idéias religiosas da reforma protestante. O resultado foi tremendo, Nicolas e todos os seus amigos tiveram que abandonar Paris, ficando o mesmo com a cabeça a prêmio. Sem dúvida, este incidente acelerou a aproximação de Calvino com o grupo Protestante. Na sua fuga para Angoulême, Calvino encontrou na rica biblioteca de Louis de Tillet, a paz e a oportunidade para escrever suas Institutas. Depois de uma certa clandestinidade, Calvino volta a Noyon, é reconhecido, preso, solto e preso novamente para ser solto pouco tempo depois. Volta a Paris onde alguns simpatizantes dos Protestantes haviam colocado alguns cartazes desafiadores em vários pontos da cidade, o que fez recair uma violenta perseguição decretada por Francisco I sobre