Depressão Na Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung
Depressão Na Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung Antônio Máspoli de Araújo Gomes “Todo psicoterapeuta não só tem o seu método: ele próprio é esse método. ‘Ars totum requirit hominem’ diz um velho mestre. O grande fator de cura, na psicoterapia, é a personalidade do médico – esta não é dada a priori; conquista-se com muito esforço, mas não é um esquema doutrinário. As teorias são inevitáveis, mas não passam de meios auxiliares.”1 Depressão na Perspectiva de Carl Gustav Jung Para Jung a personalidade é uma dimensão psíquica do ser humano em sua totalidade. Essa totalidade envolve tanto fenômenos conscientes quanto inconscientes. Para ele, a Psicologia tem como objeto a psique. Um dos pontos fundamentais é a ideia de que o inconsciente não é um simples depositário de experiências passadas, desejos ou instintos reprimidos. Ele também é criativo, quer dizer, pode conter a base de futuras situações psíquicas e ideias novas. O inconsciente é uma parte tão vital e real da psique quanto a consciência e o Ego. Em sua profícua experiência clínica, Jung percebeu que o inconsciente se transforma e provoca mutações. Este desenvolvimento psíquico chamado de “processo de individuação” é um crescimento em direção ao “si mesmo” (self), a expressão da totalidade psíquica. Por meio de sua consciência, o homem pode participar ativamente de seu desenvolvimento. Desse modo, do confronto e do relacionamento entre consciente e inconsciente, vai surgindo uma personalidade amadurecida, fruto de uma síntese cada vez maior. O termo libido é um dos construtos teóricos basilares da teoria psicanalítica. Inicialmente concebido por Freud como uma pulsão, instinto ou energia de natureza eminentemente sexual, uma força instintiva específica, este conceito foi, posteriormente, reformulado para incluir em sua definição duas pulsões vitais: eros e tanatos. Eros seria a energia ou princípio da vida e tanatos pulsão de morte. No entanto, mesmo com esta modificação, não há dúvida entre os freudianos e neofreudinaos de que a libido é uma energia de natureza puramente sexual. Jung, contudo, rompe com a concepção pansexualista de Freud, com a publicação da obra Wandlungen und Symbole der Libido (Transformações e Símbolos da Libido2), publicada em 1911/1912. Nesta pesquisa ele expõe o curso do desenvolvimento da libido na evolução da esquizofrenia, desde a sua etiologia até a dissociação completa. Jung ampliou o conceito de libido para designar a energia psíquica, em geral presente em toda a natureza. A elasticidade deste conceito compreende não apenas a energia do psiquismo humano, inclusive aquela de natureza sexual, mas abarca também a própria energia do universo, a alma mundi. Como conceito aplicado de energia logo se hipostasia nas forças (os instintos, os afetos e outros processos dinâmicos), o seu caráter concreto pode ser expresso adequadamente, a meu ver, pelo vocábulo libido, pois concepções semelhantes se utilizaram de denominações parecidas, desde tempos remotos, tais como a vontade de Schopenhauer, a arque de Aristóteles, o eros de Platão, o amor e o ódio dos elementos de Empédocles ou élan vital de Bérgson3. (JUNG, 1998, p. 28). Esta nova concepção de libido rompe com o pansexualismo freudiano e inaugura o panpsiquismo que dominará a psicologia analítica em uma perspectiva pan-energética. O novo conceito de libido formulado por Jung, em 1912, calcado no neoplatonismo e no idealismo alemão, abrange todos os fenômenos de natureza energética existente no universo. Desta energia Jung deriva os conteúdos da bioenergia ou energia vital. Esta seria a base da energia psíquica que circula pelo sistema nervoso central e periférico. O conceito de energia vital, entretanto, nada tem a ver com uma denominada força vital, pois, enquanto força, esta nada mais seria do que a forma específica de uma energia universal e, deste modo, estaria eliminada a pretensão a uma bioenergética, em oposição a uma energética física, sem se reparar no abismo, até agora então preenchido, entre o processo psíquico e o processo vital. Propus que a energia vital hipoteticamente admitida fosse chamada libido, tendo em vista o emprego que tencionamos fazer dela em psicologia, diferenciando-a, assim, de um conceito de energia universal, conservando-lhe, por conseqüência, o direito especial de formar seus conceitos próprios. Fazendo isso, não tenho a menor intenção de adiantar-me dos que trabalham no campo da bioenergética, mas tão somente dizer-lhes com toda a franqueza que empreguei o termo libido em vista do uso que dele faremos em nosso estudo. Para seu uso, esses estudiosos poderão propor, se o quiserem, os termos bioenergia ou energia vital4. (JUNG, 1998, p. 16). Com esta reformulação do conceito de libido, estava posto o machado à raiz da árvore pansexualista. A libido não se aplica somente aos conteúdos de natureza puramente sexual, amplia-se para incluir todos os aspectos da natureza humana: a mente, o corpo, a linguagem, a sexualidade, a alimentação, o mito, a religião, a arte, os jogos, o trabalho, o amor, o ódio, a doença (inclusive a depressão), e todas aquelas atividades humanas ligadas à cultura. O materialismo freudiano não poderia admitir esse novo postulado e o rompimento entre Freud e Jung estava consumado. Ao perceber no Id o instinto de individuação que busca a totalidade, a criatividade de Jung transbordou a moldura materialista pansexual da psicanálise. Em 1912, Jung publicou o livro Símbolos de Transformações, no qual expandiu o conceito de libido para torná-lo sinônimo de energia psíquica, expressão de todo e qualquer símbolo, e não somente da sexualidade. Significativamente, o último capítulo desse livro intitula-se O sacrifício, onde Jung demonstra que a transição de um símbolo para outro é uma vivência que inclui a perda emocional do que passou. Como grande intuitivo que era, Jung certamente previu que sua nova concepção da libido seria incompatível com a presidência da Sociedade Psicanalítica Internacional e, pior ainda, com sua filitude científica de Freud. O inevitável aconteceu. O filho cresceu mais que o pai, daí em diante caminhou sozinho para fundar sua própria psicologia analítica, centrada na realização arquetípica da personalidade5. (BYINGTON, 2005, p. 8). BIRMAN6 (2006) aponta outros aspectos responsáveis pelo rompimento entre Freud e Jung: a rivalidade científica entre os dois; a concepção junguiana sobre o delírio na esquizofrenia como transformação da libido e não somente como expressão da sexualidade proposta