A Religião Como Símbolo em Emile Durkheim e Carl Gustav Jung
A religião como linguagem simbólica em Emile Durkheim e Carl Gustav Jung Antonio Maspoli Laura Colonhezi RESUMO Este ensaio focaliza o estudo da religião como representação social seguindo a tradição de Émile Durkheim e a perspectiva jungiana de estudar o fenômeno religioso como linguagem simbólica. Estes autores contribuíram para colocar o fenômeno do campo religioso no âmbito da linguagem. PALAVRAS-CHAVE Religião – psicologia da religião – representação social – linguagem simbólica – simbolismo religioso – psicologia analítica. ABSTRACT The theory of social representation is a new look in the perception of religious phenomena. This essay consists in the introduction of this theory, applying it to comprehend the influence of social social construction of mentality according to Émile Durkheim and Carl Gustav Jung. Consequently, this research leads to application of the social representation theory in the social construction of the religion as a symbolic language. KEY WORDS Religion – psycology of religion – social representation – symbolic language – religious symbolism – analitical psycology 1. A religião como linguagem no contexto simbólico das representações sociais O primeiro a cunhar e utilizar o termo representações sociais foi Émile Durkheim, (1912) na obra Les Formes Élémentaires de la Vie Religiuse. Nesta obra Durkheim demonstra que a idéia de religião é inseparável da idéia de comunidade religiosa. As crenças propriamente religiosas são sempre comuns a uma coletividade determinada. Nesta comunidade o individuo abre mão, às vezes, da sua própria liberdade pessoal para aderir as praticas e ritos coletivos e solidários cujo objetivo final é receber em troca um determinado conhecimento do senso comum uma certa organização da realidade da vida cotidiana. Em Durkheim as representações sociais se referem a uma classe de crenças que procurava dar conta de fenômenos como a religião, os mitos, a ciência, as categorias de espaço e tempo em termos de conhecimentos inerentes à sociedade, isto é, de como a sociedade organiza a sua realidade transformando a em conhecimentos úteis para a compreensão da dinâmica da vida comunitária. Tais crenças não são somente admitidas, a título individual, por todos os membros dessa coletividade; são as coisas do grupo e dele fazem à unidade. Os indivíduos que a compõem sentem-se ligados uns aos outros pelos laços de uma crença comum. Formando uma sociedade, cujos membros são unidos porque representam da mesma maneira o mundo sagrado e as relações deste com o mundo profano e porque traduzem esta representação comum em práticas idênticas, é o que chamamos uma religião. Ora, para Durkheim não se encontra, na História, religião sem Igreja. Ora a Igreja é estreitamente nacional, ora se estende além das fronteiras; ora compreende um povo todo inteiro (Roma, Atenas, o povo hebreu), uma etnia, ora não compreende senão uma fração (as sociedades cristãs depois do advento do protestantismo); ora é dirigida por um corpo de sacerdotes, ora é mais ou menos desprovida de órgão diretor revestido de título. Por toda parte em que observamos uma vida religiosa, que tem como substrato um grupo definido. Mesmo os cultos chamados privados, como o culto doméstico ou o culto corporativo satisfazem a essa condição, porque eles são sempre celebrados por uma coletividade, a família ou a corporação. Além disso, do mesmo modo que essas religiões particulares não são, seguidamente, senão formas específicas de uma religião mais geral que abraça a totalidade da vida. Segundo Durkheim, (1912), pois, uma religião é um sistema solidário de crenças e de práticas relativas a coisas sagradas, isto é, separadas, interditas, crenças e práticas que unem, numa mesma comunidade moral, chamada Igreja, todos os que se lhes aderem. O segundo elemento que toma assim lugar em sua definição não é menos essencial que o primeiro porque a idéia de religião é inseparável da idéia de Igreja, faz-se pressentir que a religião deve ser uma coisa eminentemente coletiva. A religião seria o útero de formação das representações sociais na concepção de Durkheim. Na sociologia durkheiminiana, a sociedade é uma realidade sui generis e as representações coletivas, que a exprimem, são fatos sociais, coisas reais por elas mesmas. As representações coletivas são o produto de uma imensa cooperação que se estende não apenas no espaço, mas no tempo; para fazê-las, uma multidão de espíritos diversos associaram-se, misturaram-se e combinaram suas idéias e sentimentos transformando-os em símbolos ; longas séries de gerações acumularam aqui sua experiência e saber. Dessa gênese espetacular resultariam as características básicas das representações coletivas, em relação aos comportamentos e aos pensamentos individuais: autonomia, exterioridade e coercitividade. Dizendo de outra forma, os indivíduos que compõem a sociedade seriam portadores e usuários das representações coletivas, mas estas poderiam ser legitimamente reduzidas a algo como o conjunto das representações individuais, das quais difeririam essencialmente pelo seu caráter de totalidade social. A proposição do conceito de representações coletivas buscou apoio empírico no estudo das religiões simples de povos ditos primitivos, embora, segundo Durkheim (1989), as formas elementares de representações identificadas naquelas religiões pudessem ser encontradas como substrato básico, também nas religiões mais elaboradas. O mesmo aconteceria com relação às demais formas de conhecimento social, visto derivarem todas da própria religião. Moscovici corrobora com este pensamento (1978, p. 25): Foi Durkheim o primeiro a propor a expressão’representação coletiva’. ’ Quis assim designar a especificidade do pensamento social em relação ao pensamento individual. Assim como, em seu entender, a representação individual é um fenômeno puramente psíquico, irredutível à atividade cerebral que permite também a representação coletiva não se reduz à soma das representações dos indivíduos que compõem uma sociedade. Com efeito, ela é um dos sinais do primado do social sobre o individual, da superação deste por aquele. Para Durkheim, competia à Psicologia Social estudar de que modo às representações se atraem, se excluem e se fundem umas com as outras ou se distinguem. Ela ainda não efetuou esse estudo até agora, o que é uma pena. A concepção durkheiminiana torna-se o fundamento da conceituação de Moscovici sobre representações sociais, segundo este (1978, p. 26): “Em poucas palavras, a representação social é uma modalidade de conhecimento particular que tem por função a elaboração de comportamentos