Angustia, Fé e Sentido da Vida
Angústia, Fé e Sentido da Vida Dâmaris Cristina de Araújo Malta 1. INTRODUÇÃO Gostaria de compartilhar com vocês a visão fenomenológica-existencial para entender a relação entre angústia, a fé e a busca de sentido para a vida. São fenômenos humanos que se interagem e que cada vez mais são discutidos, percebidos e sentidos na pós-modernidade. Segundo Mendonça (2000), o fenômeno consiste de algo. Algo que se faz presente por meio da percepção, que se deixa ser revelado e que tem relação com aquilo que se mostra e com aquele a quem se mostra, utilizando-se para isso os instrumentos epoché e “redução eidética”. O primeiro seria a “neutralização, que suspende toda posição teórica e permite perscrutar o sentido manifesto sem levar em conta qualquer critério de existência ou valor” (PIAZZA, 1976, p. 18). Por meio da epoché, coloca-se entre parênteses toda a teoria que foi adquirida até o momento e vislumbra-se o indivíduo sem qualquer juízo. A redução eidética consiste em “buscar o significado ideal e não empírico dos elementos empíricos” (MENDONÇA, 2000, p. 140). Procura encontrar a essência do fenômeno, ou seja, aquilo que identifica a coisa como tal e que se encontra perceptível a todos os seres humanos. Angústia e busca de sentido para a vida são temas existenciais e que têm sua importância no ser humano. Eles podem ser estudados separadamente, o que não será feito aqui, ambos serão interligados e estudados como interdependentes. Angústia é um sentimento individual e ao mesmo tempo, coletivo. Individual porque cada um a sente de um jeito, com uma intensidade singular e una, não sei como você a sente, mas cada um a conhece em sua individualidade. E, como disse Caetano Veloso, “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Coletivo porque todos a sentem. O que pode diferir é a intensidade e a sensação, mas, mesmo assim, a angústia está presente em todos nós, seres humanos, racionais, emocionais, sentimentais e espirituais. A angústia pode ser compartilhada na intersubjetividade e na intimidade. O mesmo acontece com a busca do sentido da vida, sendo apresentada como individual e coletiva. Para se estudar angústia e busca de sentido da vida é necessário entender o Homem em sua totalidade, evitando a fragmentação tão difundida pelo Positivismo. Tal pensamento assinala que a alma é igualada à consciência humana, é vista como “órgão” estruturador e organizador dos processos mentais, e não como habitante do corpo e como substância assim pensavam os primeiros filósofos. Sendo, portanto, esquecida sua parte espiritual. Spinoza acreditava que a alma seria “uma parte do intelecto infinito de Deus, isto é, uma manifestação necessária da substância divina” (ABBAGIANO, 1998, p. 30). Na realidade, esse olhar mais espiritual foi negado pela ciência positivista, que a todo o momento oculta a possibilidade do conceito alma por não ser compreendido pela racionalização humana. Mesmo com o avanço da Ciência, questões sobre a alma humana não foram respondidas. Então, surge a Psicologia Humanista que deixa de transformar o homem em partes desconectadas e passa a estudá-lo e entendê-lo em todas as suas potencialidades, em sua totalidade, e se interessa por temas que estão diretamente relacionados ao ser humano total. Muitas vezes angústia é confundida com tristeza e até mesmo com depressão. Passaremos a uma breve diferenciação. Angústia é um sentimento existencial que será detalhado ao longo deste trabalho. Tristeza é entendida como um emoção ou sintoma. Na cultura ocidental é conhecida como emoção de ordem negativa, de conotação ruim, geralmente manifestada diante de situações de sofrimento. A tristeza não é reforçada na Pós-Modernidade, em que a alegria, mesmo que superficial, é supervalorizada. Também é compreendida como um dos sintomas do quadro de pacientes depressivos, de acordo com Barbosa (2006). Depressão é uma síndrome biopsicossocial, um distúrbio do humor. Atualmente é a doença que mais tem incidência nos consultórios médicos. Em termos biológicos, há uma alteração fisiológica; em termos psicossociais, a depressão pode estar relacionada a algum sofrimento individual ou coletivo. O relacionamento do ser consigo mesmo, com os outros ou com um Ser Superior influencia seu modo de atuação e percepção do mundo. A depressão pode ser um resultado da interação do homem com o mundo, que muitas vezes lhe é inóspito. Pode ser a manifestação da escolha inautêntica do Ser, segundo termos heideggerianos, ou a falta de motivação para buscar o sentido para a vida. O avanço da ciência médica e psíquica vem possibilitando o entendimento profundo, o tratamento e a cura dessa doença, segundo Barbosa (2006) e Gomes (2007). Segundo Kierkegaard (1813-1855), a angústia é o sentimento frente à possibilidade. Não há como existir e não se sentir angustiado. Sendo a existência: o modo de ser constituído pelas relações do homem consigo mesmo, com o mundo e com Deus; é analisável em um conjunto de possibilidades cujo caráter é justamente não possuir, por si mesmo, nenhuma garantia de realização (ABBAGIANO, 1998, p. 400). O Homem se vê mergulhado em angústia diante da dimensão de Ser, frente à possibilidade do Não Ser ou pelo temor ao seu Vir a Ser, por não conhecê-lo ou pela incerteza de não concretizá-lo. Sente-se incapaz de viver em liberdade de escolhas; teme escolher, principalmente optar por seu modo mais próprio de viver no mundo, de forma angustiada, mas preenchida de sentido e de incertezas. Heidegger (1889-1976), afirmou em 1927 que a angústia também é o ponto central da existência. Por meio dela reconhecemos as possibilidades e as limitações humanas, principalmente a limitação temporal, ou seja, a morte. Estando em angústia, o Homem consegue perceber que seu Ser é um ser para a morte, não há escapatória, e assim vivencia esta vida limitada de forma plena. A compreensão do morrer origina a escolha de possibilidades próprias e únicas, levando a um existir significativo a cada indivíduo. Esse processo torna-se possível devido à presença da angústia, não como algo paralisante e desencadeante de morte existencial, mas sim como experimentação do nada, daquele vazio que impulsiona para a movimentação do Ser, para a mudança nas relações e significações. A busca por