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Angustia, Fé e Sentido da Vida

Angústia, Fé e Sentido da Vida Dâmaris Cristina de Araújo Malta   1. INTRODUÇÃO Gostaria de compartilhar com vocês a visão fenomenológica-existencial para entender a relação entre angústia, a fé e a busca de sentido para a vida. São fenômenos humanos que se interagem e que cada vez mais são discutidos, percebidos e sentidos na pós-modernidade. Segundo Mendonça (2000), o fenômeno consiste de algo. Algo que se faz presente por meio da percepção, que se deixa ser revelado e que tem relação com aquilo que se mostra e com aquele a quem se mostra, utilizando-se para isso os instrumentos epoché e “redução eidética”. O primeiro seria a “neutralização, que suspende toda posição teórica e permite perscrutar o sentido manifesto sem levar em conta qualquer critério de existência ou valor” (PIAZZA, 1976, p. 18). Por meio da epoché, coloca-se entre parênteses toda a teoria que foi adquirida até o momento e vislumbra-se o indivíduo sem qualquer juízo. A redução eidética consiste em “buscar o significado ideal e não empírico dos elementos empíricos” (MENDONÇA, 2000, p. 140). Procura encontrar a essência do fenômeno, ou seja, aquilo que identifica a coisa como tal e que se encontra perceptível a todos os seres humanos. Angústia e busca de sentido para a vida são temas existenciais e que têm sua importância no ser humano. Eles podem ser estudados separadamente, o que não será feito aqui, ambos serão interligados e estudados como interdependentes. Angústia é um sentimento individual e ao mesmo tempo, coletivo. Individual porque cada um a sente de um jeito, com uma intensidade singular e una, não sei como você a sente, mas cada um a conhece em sua individualidade. E, como disse Caetano Veloso, “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.  Coletivo porque todos a sentem. O que pode diferir é a intensidade e a sensação, mas, mesmo assim, a angústia está presente em todos nós, seres humanos, racionais, emocionais, sentimentais e espirituais. A angústia pode ser compartilhada na intersubjetividade e na intimidade. O mesmo acontece com a busca do sentido da vida, sendo apresentada como individual e coletiva. Para se estudar angústia e busca de sentido da vida é necessário entender o Homem em sua totalidade, evitando a fragmentação tão difundida pelo Positivismo. Tal pensamento assinala que a alma é igualada à consciência humana, é vista como “órgão” estruturador e organizador dos processos mentais, e não como habitante do corpo e como substância assim pensavam os primeiros filósofos. Sendo, portanto, esquecida sua parte espiritual. Spinoza acreditava que a alma seria “uma parte do intelecto infinito de Deus, isto é, uma manifestação necessária da substância divina” (ABBAGIANO, 1998, p. 30). Na realidade, esse olhar mais espiritual foi negado pela ciência positivista, que a todo o momento oculta a possibilidade do conceito alma por não ser compreendido pela racionalização humana. Mesmo com o avanço da Ciência, questões sobre a alma humana não foram respondidas. Então, surge a Psicologia Humanista que deixa de transformar o homem em partes desconectadas e passa a estudá-lo e entendê-lo em todas as suas potencialidades, em sua totalidade, e se interessa por temas que estão diretamente relacionados ao ser humano total. Muitas vezes angústia é confundida com tristeza e até mesmo com depressão. Passaremos a uma breve diferenciação. Angústia é um sentimento existencial que será detalhado ao longo deste trabalho. Tristeza é entendida como um emoção ou sintoma. Na cultura ocidental é conhecida como emoção de ordem negativa, de conotação ruim, geralmente manifestada diante de situações de sofrimento. A tristeza não é reforçada na Pós-Modernidade, em que a alegria, mesmo que superficial, é supervalorizada. Também é compreendida como um dos sintomas do quadro de pacientes depressivos, de acordo com Barbosa (2006). Depressão é uma síndrome biopsicossocial, um distúrbio do humor. Atualmente é a doença que mais tem incidência nos consultórios médicos. Em termos biológicos, há uma alteração fisiológica; em termos psicossociais, a depressão pode estar relacionada a algum sofrimento individual ou coletivo. O relacionamento do ser consigo mesmo, com os outros ou com um Ser Superior influencia seu modo de atuação e percepção do mundo. A depressão pode ser um resultado da interação do homem com o mundo, que muitas vezes lhe é inóspito. Pode ser a manifestação da escolha inautêntica do Ser, segundo termos heideggerianos, ou a falta de motivação para buscar o sentido para a vida. O avanço da ciência médica e psíquica vem possibilitando o entendimento profundo, o tratamento e a cura dessa doença, segundo Barbosa (2006) e Gomes (2007). Segundo Kierkegaard (1813-1855), a angústia é o sentimento frente à possibilidade. Não há como existir e não se sentir angustiado. Sendo a existência: o modo de ser constituído pelas relações do homem consigo mesmo, com o mundo e com Deus; é analisável em um conjunto de possibilidades cujo caráter é justamente não possuir, por si mesmo, nenhuma garantia de realização (ABBAGIANO, 1998, p. 400). O Homem se vê mergulhado em angústia diante da dimensão de Ser, frente à possibilidade do Não Ser ou pelo temor ao seu Vir a Ser, por não conhecê-lo ou pela incerteza de não concretizá-lo. Sente-se incapaz de viver em liberdade de escolhas; teme escolher, principalmente optar por seu modo mais próprio de viver no mundo, de forma angustiada, mas preenchida de sentido e de incertezas. Heidegger (1889-1976), afirmou em 1927 que a angústia também é o ponto central da existência. Por meio dela reconhecemos as possibilidades e as limitações humanas, principalmente a limitação temporal, ou seja, a morte. Estando em angústia, o Homem consegue perceber que seu Ser é um ser para a morte, não há escapatória, e assim vivencia esta vida limitada de forma plena. A compreensão do morrer origina a escolha de possibilidades próprias e únicas, levando a um existir significativo a cada indivíduo. Esse processo torna-se possível devido à presença da angústia, não como algo paralisante e desencadeante de morte existencial, mas sim como experimentação do nada, daquele vazio que impulsiona para a movimentação do Ser, para a mudança nas relações e significações. A busca por

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Depressão – Conceito e Causas

Conceito e Causas da Depressão Antonio Maspoli   Dados da Organização Mundial de saúde afiam que em todo o mundo, os deprimidos são milhões. As estatísticas mais recentes indicam que 5% da população sofre de depressão, com prevalência das mulheres (4,5 a 9,3%) sobre os homens (2,3 a 3,2%). De qualquer modo, é previsto que 10% das pessoas podem sofrer ao menos um episódio depressivo ao longo da vida. O início da doença pode ocorrer em qualquer idade, mas a adolescência e os primeiros anos da juventude são os períodos de maior risco, sobretudo para as mulheres. Os homens, ao contrário, correm risco de sofrer de depressão principalmente entre os 35 e os 44 anos de idade. Aproximadamente dois em cada dez casos de depressão prolongam-se no tempo, tornando-se crônicos. Nas mulheres, a freqüência da cronicidade é quatro vezes maior do que nos homens. Os períodos de prevalência da depressão são mais comuns no sexo feminino, sendo 3,2% no feminino e 1,9% no masculino. Estima-se que 5,8% dos homens e 9,5% das mulheres passarão por períodos depressivos em 12 meses. A depressão contínua afeta de 15% a 20% das mulheres e de 5% a 10% dos homens. Em 20% dos casos, a depressão segue um curso contínuo, especialmente quando não há tratamento adequado. Depressão (do latim depressione) é uma palavra frequentemente utilizada para descrever uma gama imensa de sentimentos negativos e sombrios. Em primeiro lugar, depressão não é um estado de tristeza profunda, nem desânimo, preguiça, estresse ou mau humor. A depressão é diferente da tristeza, pois a tristeza geralmente tem uma causa conhecida e duração determinada no tempo e no espaço. Já a depressão envolve uma gama de sentimentos difusos de longa duração no tempo e no espaço, geralmente relacionados à angustia. A depressão, enquanto evento psiquiátrico, é algo bastante diferente da tristeza. Mesmo assim, em alguns casos, podemos considerar a depressão como uma reação natural da pessoa humana em períodos de transição, especialmente em tempos de mudanças e crescimento, em épocas que antecedem novos horizontes de amadurecimento do ser em constante processo de desenvolvimento. Metaforicamente a depressão é um túnel do qual parece impossível sair; um abismo cinzento que engole a vontade de viver; o vazio, a angústia que aperta a garganta; uma solidão sem fim. Um poço sem fundo que teima em atrair o deprimido para o seu interior desconhecido. A depressão tem muitos nomes, todos terríveis. A causa exata da depressão permanece desconhecida. A explicação mais plausível aponta para um desequilíbrio bioquímico nas sinapses dos neurônios responsáveis pelo controle do estado de humor. Na depressão, bem como em todas as psicoses em geral, o sujeito sofre de alterações nas estruturas dos neurônios, mormente no funcionamento das sinapses. Tal afirmação baseia-se na comprovada eficácia dos antidepressivos. O fato de ser um desequilíbrio bioquímico não exclui tratamentos farmacológicos e psicológicos. A medicação apropriada restaura o equilíbrio bioquímico e a psicoterapia restaura o equilíbrio psicológico e pode levar a pessoa a obter uma compensação bioquímica A depressão manifesta-se quando determinados sistemas de transmissão entre as células do cérebro, ou seja, os neurônios se alteram. Com efeito, para que o sistema nervoso funcione bem, é necessário que a transmissão das mensagens elétricas de um neurônio para outro ocorra por meio do ponto de contato entre uma célula e outra, que se designa por sinapse. Quando uma mensagem elétrica enviada por um neurônio chega à sinapse, provoca a liberação de determinadas substâncias químicas, os neurotransmissores, que funcionam como mensageiros, depois de passarem ao neurônio seguinte, onde provocam a saída de um novo sinal elétrico. Consequentemente, quando a atividade de alguns neurotransmissores se altera, podem ocorrer transmissões perturbadas. Especificamente, no aparecimento da depressão são dois os neurotransmissores principalmente implicados: a serotonina e a noradrenalina, que estão envolvidas em todas as funções que se apresentam alteradas durante a depressão e que provocam os sintomas característicos desta (ibidem). Parece existir correlação entre certos acontecimentos estressantes na vida das pessoas e o início de um episódio depressivo. Contudo, tais eventos não podem ser responsabilizados pela manutenção da depressão. Trabalhos recentes demonstram que mais do que a influência genética, o ambiente familiar durante a infância pode ser um dos fatores responsáveis pelos surtos depressivos. Os eventos estressantes oriundos do meio provavelmente disparam a depressão reativa nas pessoas predispostas, vulneráveis. Citamos, como exemplo, o assédio moral no trabalho, que tem sido um fator desencadeante da depressão. A influência genética é considerada relevante. A depressão também pode ter um componente hereditário. De fato, verificou-se que essa doença tende a se apresentar mais frequentemente no seio dos elementos de uma mesma família. Essa teoria foi confirmada por vários estudos realizados em filhos de pais que sofriam de perturbações de humor, criados por pessoas não afetadas por esses problemas; verificou-se que tais indivíduos apresentavam perturbações de humor que nunca tinham se manifestado nos pais adotivos. Pode-se afirmar que, para todos eles, descrever a sensação de inutilidade, tristeza, angústia é quase nula, porque tal vivência no interior da alma do deprimido significa que qualquer coisa se rompe subitamente e faz cair a vida em pedaços, sem deixar qualquer saída. E, ao mesmo tempo, o sofrimento é tão grande que o isola completamente do mundo exterior, a ponto de parecer que os outros não conseguem compreender o tormento interior que dilacera a sua existência. A depressão, nesses casos, produz aquele sentimento de estranhamento diante do mundo e do outro, que todo deprimido conhece muito bem. Episódios depressivos e quadros de depressão podem acontecer em todas as fases do desenvolvimento humano.

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Trauma Transgeracional em Sigmund Freud e Carl Gustav Jung

Trauma Transgeracional em Sigmund Freud e Carl Gustav Jung Antonio Maspoli Introdução Trauma transgeracional nas diferentes abordagens – analisa o trauma histórico na Psicologia Cognitiva a partir da apreensão do conceito de desamparo aprendido; avalia o trauma histórico transgeracional no pensamento de Sigmund Freud, especialmente sobre o complexo de Édipo; e fundamenta-se nas concepções de Carl Gustav Jung; na neurociência e epigenética, sobretudo nas pesquisas de Rachel Yehuda et al. (2015). Finalmente, as teorias são analisadas quanto à sua relevância, consistência e aplicabilidade no campo. Trauma Transgeracional em Sigmund Freud No texto “Totem e Tabu”, publicado em 1913-1914, Sigmund Freud (2006a) utilizou-se dos levantamentos feitos por Frazer (1980), na obra “Um ramo de ouro”, sobre a religião totêmica indoeuropeia, com isso, procura conciliar suas teorias psicológicas, especialmente quanto à origem do complexo de Édipo, com base nnaquilo que observou   em sua clínica psicológica, com o comportamento daqueles povos ditos primitivos pesquisados na biblioteca por Frazer. Freud comparou tais dados com os fatos observados em seus próprios pacientes – isso tudo ainda à época da Primeira Tópica. A partir desse estudo e de suas suposições, Freud admite coincidências com a estrutura da personalidade do homem atual. Entre essas coincidências citamos  a teoria edipiana, os conceitos de culpa e outros. O primeiro ensaio do livro “O Horror ao Incesto” trata do tema demonstrado no título. A pesquisa sobre a origem desse horror é realizada através dos totens e tabus das sociedades ditas primitivas. Freud afirma que os totens e tabus ainda existem, em nossa sociedade, sob forma psicológica. Se os totens e, principalmente, os tabus existem, e de maneira mais objetiva na infância, pode-se supor que ou foram criados na infância ou foram transmitidos pela cultura. Não nos deteremos aqui descrevendo essas sociedades totêmicas, passando diretamente as conclusões  que Freud extraiu delas: a) a sociedade totêmica tem por objetivo a exogamia (proibir o incesto); b) o ritual totêmico visa à manutenção desse estado; as evitações complementam as restrições de relação sexual, pois alguns casos não se encaixam nas proibições totêmicas, mas são igualmente indesejados pela sociedade; c) em geral, as proibições totêmicas ocultam o sentido de serem dirigidas essencialmente ao filho homem; d) há a generalização do horror ao incesto naquelas sociedades; e) se há tanta proibição, deduz-se que há muito desejo de fazer o proibido; f) esse horror ao incesto é uma característica essencialmente infantil nos dias de hoje; g) esse comportamento é igual ao da vida psíquica de um neurótico (infantilismo); h) o comportamento de o menino sentir-se atraído pela mãe e irmã é corrigido pela resolução do Complexo de Édipo; i) Essa resolução funda-se na rejeição e repressão que o ser humano faz aos primitivos desejos. Os desejos primitivos do homem mantêm-se atualmente sob forte repressão. A repressão é a base da cultura. É o preço que o homem paga para ser civilizado. A conclusão óbvia, em decorrências desses postulados, é que a neurose é comum a todos nós.  Freud explica a continuidade do totem e especialmente dos tabus, pela transmissão intergeracional da psique coletiva, por intermédio da cultura. Ninguém pode ter deixado de observar, em primeiro lugar, que tomei como base de toda minha posição a existência de uma mente coletiva, em que ocorrem processos mentais exatamente como acontece na mente de um indivíduo. Em particular, supus que o sentimento de culpa por uma determinada ação persistiu por milhares de anos e tem permanecido operativo em gerações que não poderiam ter tido conhecimento dela. Supus que um processo emocional, tal como se poderia ter desenvolvido em gerações de filhos que foram maltratados pelos pais, estendeu-se a gerações novas livres de tal tratamento, pela própria razão de o pai ter sido eliminado. (FREUD, 2006a, p. 159). Freud utiliza o termo psique coletiva para explicar, desse modo, a continuidade, geração após geração, de certas proibições, como a proibição de parricídio, canibalismo e incesto. Anne Schützenberger (1993) afirma que Freud empregava a expressão psique coletiva para fundamentar sua teoria da transmissão intergeracional da regra da proibição do incesto, do horror que essa regra produz. A proibição do incesto é a base para a construção da teoria do Complexo de Édipo (SCHÜTZENBERGER, 1993, p. 17-18). “Uma tal compreensão inconsciente de todos os costumes, cerimônias e dogmas que restaram da relação original com o pai pode ter possibilitado as gerações posteriores receberem sua herança de emoção. ” (FREUD, 2006a, p. 160). E prossegue: Uma reflexão mais demorada, contudo, demonstrará que não estou só na responsabilidade por esse audacioso procedimento. Sem a pressuposição de uma mente coletiva, que torna possível negligenciarmos as interrupções dos atos mentais causados pela extinção do indivíduo a psicologia social em geral não poderia existir. A menos que processos psíquicos sejam continuados de uma geração para outra, ou seja, se cada geração fosse obrigada a adquirir novamente sua atitude para com a vida, não existiria progresso nesse campo, e quase nenhuma evolução. Isso dá origem a duas outras questões; quanto podemos atribuir a quantidade psíquica na sequência das gerações? Quais são as maneiras e meios empregados por determinada geração para transmitir seus estados mentais à geração seguinte? (FREUD, 2006a, p. 159). A transmissão intergeracional em Freud origina-se desses tabus ou desejos proibidos até hoje. Ele afirma que a espécie humana mantém impressões do passado distante, como traços de memória, e que há uma espécie de herança comum transmitida pela cultura. Com esse pressuposto, Freud assinala que o Complexo de Édipo, o medo da castração e a culpa que provocam várias neuroses modernas têm sua origem nos primórdios das hordas. Os jovens machos expulsos se rebelam contra a autoridade do velho macho da tribo, matando-o e redistribuindo as fêmeas entre si. Freud faz analogia entre o tabu e a história da religião. Nessa analogia, ele compara a psicopatologia da gênese das neuroses humanas num campo da psicologia individual, enquanto os fenômenos religiosos fazem parte da psicologia grupal. Freud assevera que uma neurose nem sempre pode ser encarada como traumática e, na história do indivíduo neurótico, nem sempre é possível descobrir um trauma. Quando estudamos a história do indivíduo neurótico e não encontramos explicações,

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A Doença Mental No Mundo Antigo

A DOENÇA MENTAL NO MUNDO ANTIGO ANTONIO MASPOLI A psique simplesmente é o espelho do SER, é o conhecimento dele e tudo se move nela. (JUNG, 1988, p. 86). A Doença Mental e Socialmente Construída e Socialmente Determinada Assim como o homem, a doença mental é historicamente construída e socialmente determinada. A depressão é um produto histórico. Consiste no resultado de uma série de ideias agregadas ao longo do tempo. A relação com a depressão, nos diferentes momentos históricos, foi estabelecida a partir de diferentes fatores: a) a estrutura da sociedade; b) a etapa histórica do desenvolvimento da sociedade considerada; c) o estado de compreensão dos problemas emocionais; d) a gravidade da doença; e) a relação médico-paciente; f) fatores genéticos pré-disposição hereditária. Na concepção religiosa, a doença poderia ser considerada unicamente como consequência da culpa e do pecado de nossos pais. O conceito de depressão foi construído a partir de todos esses elementos. Antes de entrarmos no estudo da depressão sobre a ótica da religião, convém considerar a evolução da compreensão histórica da doença. A compreensão da doença não ocorre a partir de cortes epistemológicos, como sugere Thomas S. Kuhn (1977) para a explicação do surgimento da teoria da relatividade e dos saltos quânticos da física. O conceito de enfermidade é também um termo cultural e subjetivo. Isso quer dizer que a enfermidade depende muito mais da evolução histórica e acumulação de conhecimento e experiência dos fenômenos recorrentes, do que de saltos epistemológicos ou mesmo de esquemas de patologização dos comportamentos apresentados. Cabe registrar ainda que, a concepção científica da doença trata-se de um fenômeno recente. A medicina científica tem cerca de cem anos de existência, quando se passou a considerar que o conhecimento humano circula por meio das representações sociais, e que essas não circulam de igual forma em todos os círculos sociais (BERGER, 1973; MOSCOVICI, 1978, p.110-125). Não se pode esperar que o homem comum, de senso comum, possua e aplique a mesma compreensão da doença produzida pela classe médica e pelos círculos mais providos de conhecimento de uma determinada sociedade ou grupo social. O homem comum tem sua própria compreensão da doença e do seu tratamento. É bom lembrar que a sociedade humana sobreviveu séculos sem laboratórios e sem penicilina, sem psiquiatras e sem psicanalistas. E parece que, se saiu bem sem eles.  Até hoje, na Amazônia, os povos da floresta sobrevivem à custa de chás, banhos, infusões de plantas medicinais, rezas e rituais mágicos religiosos. As representações sociais de uma sociedade primitiva se constituem em um  fenômeno complexo e etnocêntrico. Todos os conceitos teóricos utilizados para se compreender as representações dessas sociedades são formulados geralmente em outra classe social, portanto, em outra cultura ou subcultura. No entanto, o pesquisador das ciências humanas e sociais não tem como fugir desse dilema. Tal paradoxo não deve imobilizá-lo no niilismo, antes deve ser mais um fator de motivação para levá-lo a deslindar o novelo da sua própria curiosidade e ignorância das diferenças culturais, nos diversos estágios de desenvolvimento das sociedades humanas, e sua compreensão dos problemas do ser humano. Nesta pesquisa, utilizaremos o conceito de sociedade primitiva para compreender as representações sociais da depressão no contexto da religião. Primitivo, neste contexto, será utilizado como sinônimo de simples, em oposição a complexo; tecnologicamente pouco desenvolvido em oposição a tecnologicamente desenvolvido; mágico, em oposição à racional. Cabe registrar ainda que no pensamento primitivo leva-se em consideração somente a classificação binária: luz e trevas, bem e mal, Deus e Demônio, saúde e doença etc. (DURKHEIM, 1989, p. 485-526). Nas sociedades ditas primitivas, as soluções para os problemas existem concretamente e são sempre compreendidas de forma simplificada, em termos absolutos, a partir da concepção de verdades absolutas em termos científicos, a partir das forças da natureza soluções mágicas e da intervenção da divindade soluções mágico-religiosas, milagrosas. Dizendo de outro modo, para o homem primitivo, os problemas têm sempre soluções muito simples. São considerados apenas produtos de causas naturais ou sobrenaturais. A verdade e a virtude geralmente triunfam sobre a mentira, o bem triunfa sobre o mal, a doença sobre a enfermidade etc. Finalmente, Deus vence o Diabo na terra do sol. Carl Gustav Jung considera um erro acreditar que o pensamento primitivo ocorra somente entre os homens simples das sociedades pouco desenvolvidas (JUNG, 1983, p. 30).  Ao contrário, primitivo pode se referir também à estrutura do pensamento do sujeito moderno que utiliza as mesmas formas de representação daquelas sociedades para compreender a realidade. Não se pode excluir desse conceito, aqueles membros esclarecidos das classes econômicas mais favorecidas que, por exemplo, recorrem à astrologia, ao amuleto e a outras formas de crenças, no intuito de controlar seu destino futuro, controlar o futuro de sua existência, e também seus sentimentos, amores, negócios e profissões. Quando se fala em primitivo neste texto, não se está referindo a pensamentos anacrônicos, a realidades antiquadas e às formas ultrapassadas de pensamento. No conceito da psicologia analítica, primitivo refere-se a uma corrente viva e vigorosa de pensamentos e representações mentais com raízes arquetípicas fortes e profundas. São formas de pensamento que partem das nossas origens mais remotas, continuam ao longo da história humana e chegam até nós e matizam nossos pensamentos e conhecimentos de forma surpreendente, no mais das vezes, determinando nossos comportamentos, inclusive aqueles relacionados à saúde e à doença. Quando nos referirmos ao conceito primitivo de depressão, o faremos a partir de todos esses pressupostos. Essa referência abrange ainda, a compreensão das representações da depressão em sociedades arcaicas que existiram e ainda existem, compreendendo, de igual modo, algumas representações atuais derivadas dessas representações. Este texto busca explicitar o conceito mágico-religioso da doença e da depressão na perspectiva primitiva; compreender a depressão como um fenômeno humano no contexto do campo religioso; caracterizar a depressão como um evento biopsicossocial natural  inerente à condição humana nas várias fases da vida; e apontar as principais estratégias contemporâneas para o enfrentamento e o tratamento da depressão. A Doença Mental na Magia e Na religião George Peter Murdock apresenta uma classificação para a etiologia

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Depressão Nas Crises do Desenvolvimento Humano

Antonio Maspoli DEPRESSÃO NAS CRISES DO DESENVOLVIMENTO HUMANO Introdução A depressão é uma doença solidária; ela acomete todas as pessoas, independentemente de etnia, idade, sexo, classe social, crença, profissão. Todo ser humano pode ficar deprimido. O número de deprimidos na Ásia, na Europa, nas Américas, na África, e, mesmo, no continente Australiano, é proporcionalmente semelhante, com algumas variações devidas, sobretudo, às crenças e ao clima. A depressão acomete mais protestantes do que católicos (JUNG, 1980), contudo não despreza judeus, gregos, gentios e troianos. Apesar de o número de mulheres deprimidas ser um pouco superior ao dos homens, ambos igualmente padecem desse mal. A depressão pode se manifestar ao longo da vida do indivíduo.  A entrada e saída das várias fases de desenvolvimento da vida humana podem ser marcadas por episódios de melancolia. As depressões que precedem as crises do desenvolvimento humano são consideradas normais e às vezes são até positivas, pois preparam o sujeito para se adaptar à nova fase da vida que está nascendo. Algumas dessas crises, todavia, dependendo da duração e intensidade, carecem de acompanhamento médico e psicológico.  DEPRESSÃO NA INFÂNCIA Existem crianças deprimidas. Na infância, a depressão é de mais difícil diagnóstico. Nas crianças, a depressão pode manifestar-se por meio da enurese noturna urinar na cama ou mesmo pela obesidade, hiperatividade e, às vezes, apatia. Cabe lembrar que a apatia é imprópria para a idade infantil. Até os mais novos podem sofrer desse mal obscuro, sendo o diagnóstico, em tais casos, muito complexo, porque as formas como a doença se manifesta variam com a idade, e dificilmente as crianças conseguem exprimir os seus sentimentos por meio de palavras. Por isso, muitas vezes, é necessário compreender a situação por analogias e suposições (GRUNSPUN, 1966, p. 347-351). Atualmente, temos uma atitude preocupante em relação ao comportamento infantil. Especialmente, em relação ao comportamento natural de uma criança que precisa de espaço para se movimentar e vive confinada aos limites de um apartamento. Este pesquisador ouviu recentemente de uma funcionária iluminada de uma creche a sábia observação: as crianças aqui são tratadas como soldadinhos de chumbo. Todos seguem uma ordem do dia: tem hora pra brincar, tem hora para assistir TV, tem hora para dormir, tem hora para comer, tem hora para tomar banho, tem hora para tudo. As crianças são conduzidas em fila indiana para cada atividade. Elas são tratadas como um soldado mesmo. Aquele que reage a isso é considerado hiperativo. Então é encaminhado à psicopedagoga, que o encaminha ao psiquiatra ou neurologista. O médico dá Ritalina para a criança tomar. Aí a criança fica fica normalzinha, normalzinha,  mas sem ânimo nenhum nem para brincar! As crianças não dizem sinto-me mal, e não falam da sua infelicidade. Elas exprimem o seu mal-estar com a linguagem do corpo a que conhecem melhor, com birras, protestos, choro, abatimento, tristeza, desespero mudo, ou retraimento em si próprio, recusa em se comunicar com os outros, apatia, anorexia, diminuição do rendimento escolar etc. Até os quatro anos de idade, é normal a criança manifestar o mesmo comportamento da família por mimetismo. Assim, quando a família está agitada, a criança fica agitada, quando a família chora, a criança chora, quando a família fica deprimida, a criança fica deprimida etc (JUNG, 1972). Ao contrário do que muitos pensam criança também sofre de depressão. A depressão que sempre pareceu um mal exclusivo dos adultos, hoje em dia afeta cerca de 2% das crianças e 5% dos adolescentes do mundo. Diagnosticar depressão é mais difícil nas crianças, pois os sintomas podem ser confundidos com mal criação, pirraça ou birra, mau humor, tristeza e agressividade. O que diferencia a depressão das tristezas do dia-a-dia é a intensidade, a persistência e as mudanças em hábitos normais das atividades da criança. Costuma manifestar-se a partir de uma situação traumática, tais como: separação dos pais, mudança de colégio, morte de uma pessoa querida ou animal de estimação. 1 DEPRESSÃO NA PUBERDADE E ADOLESCÊNCIA Na sociedade contemporânea ocidental, a adolescência é definida e formada por um complexo jogo de forças biológicas, culturais, econômicas e históricas. Esse estado, ao mesmo tempo transitório e demorado que pode chegar a durar uma década ou mais, é um estado diferenciado no qual o jovem não é adulto inteiramente nem criança, mas, compartilha desafios, privilégios e expectativas de ambas as épocas e vive nos dois extremos da faixa etária.  Já adulto para algumas atitudes e ainda é criança para outras. A adolescência é um período de paradoxos em que encontramos maturidade física e sexual, sem ter alcançado ainda a maturidade emocional e cognitiva. Alguns jovens não conseguem atravessar esse período com a devida saúde mental. Nesses casos, é preciso intervir para que o jovem possa retornar seu desenvolvimento e seguir adiante. Na adolescência ocorrem as primeiras mudanças ligadas ao crescimento dos sinais sexuais externos, que fazem as diferenças entre os sexos. A entrada da glândula pineal em funcionamento põe em ação no organismo um jogo complexo entre o desenvolvimento da personalidade, mudanças biológicas, transformações hormonais e de desenvolvimento. A personalidade se transforma, consequentemente, a dependência dos outros, a autoestima, a capacidade de se impor, a segurança, devaneios profundos, a insatisfação com a imagem do próprio corpo, a incerteza das novas expectativas sociais ligadas à ação dos hormônios sexuais são fatores a serem considerados na avaliação do risco de depressão na adolescência. Ao mesmo tempo, o adolescente desperta para o mundo, a natureza e o sexo. É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Tudo isso pode provocar estados depressivos. Nos mais jovens, a depressão pode ser acompanhada de uma diminuição do rendimento escolar, perturbações alimentares anorexia e bulimia e do sono, bem como a tendência para se fechar em si mesmo, afastamento de relações sociais, manifestação de certa agressividade. O auge da crise pode culminar com a entrega ao consumo de álcool e drogas. O adolescente depara-se com novas situações e várias pressões sociais que favorecem  o desenvolvimento de quadros depressivos em jovens mais sensíveis e sentimentais, levando-os a apresentar sintomas de confusão mental, despersonalização, solidão, rebeldia, descontentamento, angústia etc. A depressão

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O Trauma Transgeracional na Cultura, na Neurociência e na Epigenética

O   Trauma Transgeracioal Na Cultura, na Neurociência e na epigenética Antonio Maspoli Introdução Nesta obra o trauma histórico transgeracional  é entendido como um conjunto de acontecimentos traumáticos, cujos sintomas e suas manifestações ocorrem por meio da doença em si mesma. O trauma histórico é um tipo de Síndrome de Estresse Pós Traumático.  O trauma histórico pode ser transmitido por meio das memórias coletivas, de modo consciente e/ou inconsciente, ou mesmo por uma amnésia coletiva: o não dito. O trauma histórico pode ser transmitido de geração a geração, assim como seus afetos e sintomas correspondentes. Existem duas formas de transmissão do trauma histórico: a transmissão intergeracional e a transmissão transgeracional. Este pesquisador optou pelo termo transgeracional por considerá-lo mais objetivo do que o termo intergeracional. Embora considere os dois termos citados como sinônimos. A transmissão intergeracional ocorre por meio da transmissão das memórias traumáticas de uma geração para a outra. Essa é uma transmissão de elementos conscientes, intimamente ligados à história da memória do grupo. A transmissão intergeracional ocorre por meio da comunicação verbal e não verbal. A transmissão se dá no seio da família, pelo contato direto entre seus membros – pais e filhos, avós e netos, irmãos e irmãs, tios e sobrinhos, etc. (SCHÜTZENBERGER, 1993). A transmissão transgeracional refere-se à distância temporal de transmissão entre duas ou mais gerações. Transgeracional diz respeito às gerações, muitas vezes, sem contato direto. Atua no sentido descendente, uma vez que a geração passada passa para a geração atual suas memórias traumáticas. A transmissão de elementos patológicos se dá frequentemente de modo inconsciente, por meio do não dito, aquilo que segue os caminhos dos segredos proibidos, do tabu. O não dito se manifesta pelos sintomas psicológicos e psicossomáticos- a linguagem do trauma. Não existe um único modelo para a compreensão da transmissão do trauma transgeracional nem das suas consequências. Um trauma histórico pode provocar modificações profundas no funcionamento do grupo e de seus indivíduos, com a consequente retraumatização dos seus membros. A violência sofrida pelos membros de um grupo social pode ser retransmitida, de maneira simbólica, aos indivíduos das gerações subsequentes, que atualizam não só o núcleo do trauma, como podem produzir a sintomatologia correspondente. Diversos pesquisadores trabalham com a transmissão transgeracional do trauma. O primeiro a abordar o tema da transmissão intergeracional do trauma foi Sigmund Freud (2006a; 2006b), em “Totem e Tabu” (2006a) e em “Moisés e o Monoteísmo”(2006b). Carl Gustav Jung tratou desse tema quase na mesma época, em sua obra “Símbolos da Transformação da libido”, publicada em 1911-1912. Recentemente, o tema da transmissão intergeracional do trauma tem ocupado lugar de destaque na pesquisa sobre a transmissão do trauma na família. Gabriele Schwab (2010) investiga a transmissão intergeracional do trauma em crianças substitutas, aquelas que nascem para ocupar o lugar de uma criança perdida numa família. Anne Ancelin Schützenberger (1998) aborda a transmissão intergeracional do trauma como a síndrome do antepassado e apresenta um conjunto de teorias psicoanalíticas para a abordagem do trauma geracional e transgeracional (1993). Margaret Wilkinson (2010) estuda as relações entre o trauma transgeracional e a memória implícita em uma abordagem junguiana e neurocientífica. Rachel Yehuda et al. (2015) demonstram a possibilidade de transmissão genética das consequências do trauma do holocausto. Neste trabalho, foram destacados alguns modelos de transmissão intergeracional do trauma, tais como o desamparo aprendido; a transmissão por meio das memórias coletivas e memórias afetivas; a transmissão mediante processos inconscientes, em Freud e Jung. Serão destacados, ainda, os recentes estudos sobre a transmissão genética das consequências do trauma transgeracional realizados por Rachel Yehuda e seus colaboradores. O desamparo aprendido Cynthia C. Wesley-Esquimaux e  Magdalena Smolewski (2004) propõem um modelo cognitivo para a transmissão intergeracional do trauma histórico dos povos indígenas baseado no conceito de desamparo aprendido. O trauma histórico é compreendido como um complexo conjunto de acontecimentos traumáticos ocorridos num determinado espaço histórico e retransmitidos de geração a geração, por intermédio das memórias coletivas, da amnésia coletiva e de padrões de comportamentos que reproduzem as condições originais do trauma e sua sintomatologia. Não se trata aqui de um processo estático, haja vista que tanto o trauma quanto sua transmissão são processos dinâmicos. O desamparo aprendido pode afetar os seguintes processos psicológicos: motivação (que é reduzida na ausência de incentivo para experimentar novas respostas de enfrentamento, produzindo comportamentos passivos, sem nenhuma atitude de reação), cognição (com a consequente incapacidade de aprender novas respostas de superação) e emoção (que seria a prevalência de estados depressivos, com sentimentos de inutilidade, culpa e até de pensamentos suicidas). Segundo essa teoria, o desamparo aprendido pode se tornar um pré-requisito para a invisibilidade social: produzindo sujeitos incapazes ou sem vontade de agir de acordo com as normas sociais e sem forças para resistir, suscitando passividade na ação, em lugar de uma atitude proativa frente à realidade e ao processo de assimilação cultural (WESLEY-ESQUIMAUX; SMOLEWSKI, 2004, p. 77). Em face da experiência de genocídio cultural, os indivíduos ou os grupos podem perceber que seus comportamentos de ação e reação não têm nenhum efeito sobre os acontecimentos em curso. Os indivíduos ou grupos podem tornar-se, assim, passivos, inativos, hostis, culpados e depressivos. O fracasso social nessa teoria é atribuído ao comportamento do próprio grupo, sem considerar o contexto dos fatores históricos e sociais adversos que o cerca. Essa forma de compreender o fracasso social do grupo pode levar a uma atribuição interna de culpa, que pode reduzir ainda mais a autoestima e a capacidade de resiliência do grupo traumatizado. Não se desconsidera a relevância dessa abordagem, neste trabalho; contudo, não se privilegia o desamparo aprendido na transmissão intergeracional do trauma, nesta pesquisa, por se ter em conta que o desamparo aprendido não é suficiente para explicar o trauma em suas características inconscientes. Não existe passividade quando se trata de grupos humanos em interação com outros grupos. Não se pode ver o homem apenas como objeto do processo social, pois mesmo aqueles que foram traumatizados historicamente podem agir como sujeitos O trauma transgeracional na neurociência e na epigenética Na mitologia grega, Mnemosine, a esposa de Zeus, tornou-se

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