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O Complexo Cultural em Carl Gustav Jung

O Complexo Cultural em Carl Gustav Jung Antonio Maspoli Introdução Antes de introduzirmos o conceito de complexo cultural, precisamos estabelecer a relação entre essa teoria e a teoria dos complexos de Carl Gustav Jung (1875-1961). A teoria dos complexos desenvolvida por Jung é a base para a construção da teoria do complexo cultural. Tal teoria surgiu como resultado das pesquisas de Jung com o Teste de Reação Verbal, nos anos em que ele trabalhou no Hospital Burghölzli, em Zurique. Os nove anos que Jung passou nesse hospital foram de trabalho intenso e denso. Após a publicação da sua tese de doutorado e de alguns artigos sobre a clínica, Jung se concentrou no desenvolvimento do Teste de Associação Verbal, na busca para aproximar a sua psicologia da psicologia experimental (JUNG, 1975; 1994; 1997). O Complexo em Carl Gustav Jung O Teste de Associação de Palavras nasce das pesquisas de Jung em 1904, no Laboratório de Psicologia Experimental de Psicopatologia. Jung constrói seu estudo a partir do experimento do tempo de reação,desenvolvido por Wilhelm Wundt, em 1875 (PENNA, 2013). O teste consiste em pronunciar perante o sujeito uma série de palavras comuns previamente escolhidas e, depois, pede-se a ele para falar a primeira palavra que lhe vem à mente. Jung observava e cronometrava, com a máxima precisão possível, as emoções, os sentimentos e o tempo de reação do sujeito, diante da palavra ouvida, bem como o relato do sujeito sobre a palavra lembrada por ele. Um longo tempo de reação bem como as reações emocionais do sujeito apontavam para a existência de um complexo psicológico (JUNG, 1975). Ellenberger (1974) afirma que o Teste de Reação Verbal de Jung retoma os métodos utilizados por Galton, que empregava uma técnica semelhante para explorar os recessos mais escondidos do espírito humano. O Teste de Associação Verbal registra um aumento do tempo de reação quando a palavra tem um sentido assustador para o sujeito. Jung chamou as causas psicológicas subjacentes às reações às palavras de complexo de representação emotivamente produzido e, mais tarde, denominou esse fenômeno simplesmente complexo. O complexo jaz no inconsciente. “A experiência de associações prova eloquentemente tudo isso. Nada podemos fazer. O complexo é, por assim dizer, uma individualidade psíquica à parte, subtraída, em maior ou menor medida, ao comando hierarquizante da consciência do eu. ” (JUNG, 1975, p. 207). A metodologia de Jung era o teste de associação de palavras, e ele buscava os fatores internos que conduziam a distúrbios na função normal do ego, medidos como fluxo irrestrito de associação a uma lista de palavras de estimulo. Jung descobriu que o fluxo normal de associação do paciente era geralmente dificultado por vários afetos, daí a expressão “complexo intensificado pelo sentimento”. Quando Jung agrupou ainda essas palavras ligadas aos afetos, elas pareceram revelar um tema comum, mas esse tema decididamente não era sempre a sexualidade. (KALSCHED, 2013, p. 140). Eugen Bleuler (1911, apud ELLENBERGER, 1974) introduziu o teste de Jung em Burghölzli, para complementar os exames clínicos da esquizofrenia. Ele acreditava que o sintoma fundamental da esquizofrenia era certo relaxamento da consciência para a tensão das associações verbais e confirma as pesquisas sobre a esquizofrenia com o Teste de Associação Verbal de Jung.  O objetivo principal de Jung com o Teste de Associação de Palavras foi estabelecer a direção e o sentido dos complexos, na análise. Ele distinguiu os complexos em três categorias: complexos normais, complexos acidentais e complexos permanentes. Os complexos normais são aqueles que não afetam a psique do sujeito, como por exemplo o trauma do nascimento. Os completox acidentais são aqueles de curta duração na experiencia do sujeito, como os complexos que podem ser vivenciados numa experiencia traumática e depois dissolvidos naturalmente. Já os complexos permanentes são aquqles que fazem parte da personalidade do sujeito. Na concepção de Jung, os complexos originam-se de conflitos e traumas pessoais ou coletivos. Devido a esse conflito, um determinado conteúdo é separado do ego e da consciência, permanecendo no inconsciente e nele fazendo inúmeras relações com conteúdos afetivos afins, formando uma entidade psíquica. O conceito de complexo em Carl Gustav Jung (1998) é um constructo psicológico denso. O que é, portanto, cientificamente falando, um “complexo afetivo”? É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua tonaliade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, se comporta, na esfera do consciente, como um corpus alienum corpo estranho, animado de vida própria. (JUNG, 1998, p. 99). A etiologia dos complexos encontra-se num choque emocional, num trauma, nalgum incidente análogo, ou mesmo num conflito moral etc. Em todos esses casos, a intensidade do choque emocional foi tamanha que produziu uma cisão e/ou uma dissociação do campo do sujeito. Os complexos reprimidos no inconsciente ganham vida própria e podem emergir na consciência do sujeito como se fora uma possessão (JUNG, 1974). A repressão do trauma não resolve nem absolve o sujeito do sofrimento psíquico. O trauma continua vivo e presente no inconsciente. O trauma interfere por meio da dissociação e do complexo na vida do sujeito. Memória, cognição, afetos e sentimentos podem atuar de forma segmentada e descontínua na consciência do sujeito. “Isso significa que os elementos normalmente unificados da consciência (isto é, a conscientização cognitiva, o afeto, a sensação, a imagística) não têm permissão para se integrar ” (KALSCHED, 2013, p. 31). Os complexos são grandezas afetivas autônomas de conteúdo psíquico inconsciente. Um complexo pode apresentar graus diversos de tonalidade afetiva. Quando interferem no comportamento do sujeito, os complexos podem alterar a linguagem, a memória, a afetividade e mesmo a saúde. Quem estiver sob a influência de um complexo predominante, assimila, compreende e concebe os dados novos que surgem em sua vida, em conformidade com este complexo, ao qual ficam submetidos; em resumo: o indivíduo vive momentaneamente em função do seu complexo, como se

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O Sonho e o Trauma na Psicologia Analítica

O Sonho e o Trauma na Psicologia Analítica Antonio Maspoli Introdução A complexidade dos objetos de estudo desta pesquisa obrigou este pesquisador a buscar outros aspectos teóricos relevantes para compreender e analisar a subjetividade quilombola fruto da observação de campo. Os aspectos teóricos considerados neste capítulo procuram revelar o mundo subjetivo com relação ao sonho, ao trauma, ao tempo, etc. Foram coletados aqueles aspectos das grandes teorias e microteorias relacionados aos fenômenos estudados. São fatores teóricos que se complementam e, por isso mesmo, às vezes se interpenetram. São eles: o sonho na linguagem traumática; o sonho xamânico; o kairós – o tempo presente. O sonho ocupa um papel de destaque na Psicologia Analítica. Os sonhos tanto podem se reportar aos estados conscientes quanto aos estados inconscientes do sujeito. Os sonhos podem não apenas estar ligados ao passado como representar fatos do presente, do cotidiano, ou apontar para fatos anomalísticos e futuros da vida do sonhador (JUNG, 1975). Os complexos podem aparecer no conteúdo dos sonhos. “Jung, portanto, tentou expor conscientemente a sua opinião de que o objetivo da interpretação dos sonhos é descobrir tanto os complexos quanto o que o inconsciente tem a dizer a respeito dos complexos. ” (MATTOON, 2013, p. 31). Neste trabalho, o sonho será abordado tanto com respeito aos seus aspectos coletivos, como linguagem de traumas, quanto aos seus aspectos xamânicos. Carl Gustav Jung (1964) considera os sonhos como os mais fecundos e acessíveis caminhos de exploração do inconsciente, para quem deseja investigar a capacidade de simbolização do homem. No inconsciente, nenhum símbolo onírico pode ser separado da pessoa que o sonhou, da sua história de vida pessoal, do passado e presente, e nem mesmo das suas expectativas quanto ao futuro. Por esse motivo, Jung afirma que nenhum manual de interpretações de sonhos é válido e eficaz, pois os símbolos são próprios do sonhador e só fazem sentido no contexto da história de vida de quem sonhou. M. A. Matoon, seguindo Jung, relaciona os sonhos ao complexo e postula que “… o objetivo da interpretação dos sonhos é descobrir tanto os complexos quanto o que o inconsciente tem a dizer a respeito dos complexos” (MATTOON, 2013, p. 31). Jung trabalha com o simbolismo no contexto da interpretação dos sonhos, porque julga impossível entender tão bem um sonho alheio, a ponto de interpretá-lo perfeitamente. Ele costumava falar para seus alunos aprenderam tudo, ao máximo, sobre simbolismo, mas, na hora de interpretar um sonho, deveriam esquecer de tudo a fim de apreender o sonho da perspectiva do sonhador, e não do analista (JUNG, 1964, p. 18). “O sonho, portanto, num vocabulário simbólico, isto é, por meio de representações figuradas e sensoriais, comunica-nos ideias, juízos, concepções, diretrizes, tendências, etc., que, recalcadas ou ignoradas, se encontravam no estado de inconsciência ” (JUNG, 1975, p. 257). Carl Gustav Jung (1998) considerava que, para se entender o sentido do sonho, deve-se perguntar ao sujeito que elementos estão associados à imagem onírica. Lugares conhecidos, familiares, parentes, fatos passados, etc., porém a redução é insuficiente. Deve-se questionar o porquê daquelas associações, e não outras. Uma causa só é insuficiente. Só a influência de várias causas é capaz de dar uma determinação verossímil das imagens do sonho. Pode-se evocar toda a história do indivíduo como material associativo ao sonho, todavia deve-se ir até onde possa parecer necessário. Deve ser feita uma seleção do material e submetê-lo ao método comparativo. Os fenômenos psicológicos podem ser abordados de duas formas: causalidade e finalidade. Portanto, deve-se buscar também o para que do sonho, isto é, a sua finalidade. Na perspectiva de Jung, só o porquê não resolve. O porquê, por ser causal, pode ser reducionista e regressivo. Já o para que abre novas possibilidades para o sonhador, é probabilístico e teleológico. Na interpetação dos sonhos tanto o porque? Quanto o para que? Devem ser instrumentalizados (JUNG, 1998). Podemos formular a questão da seguinte maneira: para que serve este sonho? Que significado tem e o que deve operar? Estas questões não são arbitrárias, portanto podem ser aplicadas a qualquer atividade psíquica. Em qualquer circunstância é possível perguntar-se por quê? E para quê? Pois toda estrutura orgânica é constituída de um complexo sistema de funções com finalidade bem definida e cada uma delas pode decompor-se numa série de fatos individuais, orientados para uma finalidade. (JUNG, 1998, p. 249). O sonho como linguagem do trauma O trauma pode assumir personificações nos sonhos. Nesse caso, tais sonhos são carregados de emoções semelhantes àquelas vivenciadas pelo sujeito, na experiência traumática, intensas e ameaçadoras. Se, por um lado, o sonho possibilita uma catarse para as emoções, as sensações e os sentimentos da experiência traumática reprimidos no inconsciente, há que se considerar também que, em alguns desses sonhos, o sujeito revive a experiência traumática. A intensidade afetiva do trauma, no sonho, pode retraumatizar o sujeito, como ocorre no pesadelo. Donald Kalsched (1996) afirma que existem duas importantes constatações, na literatura a respeito do trauma: A primeira constatação é que a psique traumatizada é autotramatizante. O trauma não termina com a cessação da violência externa, mas prossegue com o mesmo vigor no mundo interior da vítima do trauma, cujos sonhos são com frequência, assombrados por figuras interiores opressores. A Segunda constatação é o fato aparentemente perverso de que a vítima do trauma psicológico continuamente dar consigo em situações de vida nas quais é retraumatizada. (KALSCHED, 2013, p. 20). Na linguagem do sonho traumático, não é incomum que a representação do complexo afetivo derivado do trauma apareça reassentada por imagens daimônicas: “Pesquisas cuidadosas desses sonhos em situações clínicas conduzem à nossa hipótese principal de que as defesas arcaicas associadas ao trauma são personificadas como imagens daimônicas. ” (KALSCHED. 2013, p. 14). A imagem daimônica representa, na psique, o processo de sofrimento e a dissociação psíquica. Daimônico é derivado de daimon: Uma sugestão para uma possível interpretação provém da derivação da palavra diabólico, do grego dia (através) e ballein (lançar) (Oxford English Dictionary), donde, lançar através ou separado. Disso deriva o significado usual de diabolôs como o Diabo, isto é, aquele que atravessa, impede ou desintegra (dissociação). (KALSCHED, 2013, p. 37). Os sujeitos traumatizados são assombrados por sonhos terríveis. Nesses sonhos, destaca-se a figura obscura do daimon como epicentro do evento onírico.

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O Tempo do Inconsciente e da Análise

O Tempo do Inconsciente e da Análise Antonio Maspoli Introdução Santo Agostinho (1997, p. 323), nas “Confissões”, afirma que os tempos, geralmente contados como três, na verdade, são considerados apenas um: o tempo presente, o tempo passado é aquele que já se foi, portanto, já não é, o tempo futuro é o que será, por conseguinte, não se pode garantir que exista nem mesmo como possibilidade. “Hume aponta para uma incômoda questão: temos absoluta certeza de que o Sol, que nasceu ontem e hoje, também nascerá amanhã mas, como chegamos a esta conclusão, se o seu oposto não é impossível? ” (CHAGAS, 1987, p. 377). Resta o tempo que corresponde ao presente linear do grego koinê. Nesse presente contínuo, portanto, podemos afirmar que o tempo presente se desdobra em três: o presente das coisas passadas, o presente das coisas presentes e o presente das coisas das futuras. “O Kairós é o momento transitório no qual algo acontece à medida que o tempo decorre. ” (STERN, 2007, p. 29). O kairós é o tempo do sagrado, dos mitos, dos ritos e das celebrações e, às vezes, dos traumas. O tempo que se situa entre o alfa e o ômega (BÍBLIA, APOCALIPSE, – 22:13). Seu sentido original – o tempo oportuno, o tempo de agir – deve ser contrastado com o khronos, o tempo mensurável ou tempo do relógio. O primeiro é qualitativo, o segundo é quantitativo. A palavra inglesa timing expressa algo de caráter qualitativo do tempo, e se falássemos de um timing de Deus em sua atividade providencial, este termo se aproximaria do sentido da palavra kairós. (TILLICH, 2005, p. 800). Mircea Eliade (1992) observa que o homem secularizado, pós-moderno, só conhece o tempo khronos, o tempo monótono e pesado do trabalho. Falta-lhe, entretanto, o tempo do lazer e das festividades, pois, para ele, o tempo não tem mistério; o tempo é começo e fim, antes e depois, e, independentemente de seus diferentes ritmos temporais, o “… homem não religioso sabe que se trata sempre de uma experiência humana, onde nenhuma presença divina se pode inserir” (ELIADE, 1992, p. 61). Não podemos conceber o tempo senão com a condição de distinguir nele momentos diferentes. Ora qual é a origem dessa diferenciação? Certamente, os estados de consciência que já experimentamos podem se reproduzir em nós, na mesma ordem em que aconteceram primitivamente: e assim, porções do nosso passado voltam a ser presente, mesmo distinguindo-se espontaneamente do presente. (DURKHEIM, 1989, p. 39). O khronos é um tempo arbitrário que corresponde ao tempo histórico da experiência vivida. O khronos é o tempo da consciência, do lado esquerdo do hemisfério cerebral. O khronos situa o homem dentro do contexto histórico de passado, presente e futuro, o antes, o agora e o depois. Diante do khronos, todavia, a relevância do tempo recai sempre sobre o passado e sobre o futuro. O tempo presente parece fadado a desaparecer da experiência humana. O tempo presente parece escapar na narrativa, torna-se subjetivo. O khronos situa-se quase sempre num ponto em movimento em direção ao porvir. Devolver o tempo à experiência é uma frase curiosa. Eis o que se encontra por trás dela: é fácil pôr um tempo linear, de relógio (chronos), em histórias sobre nós mesmos – o antes, o depois e o meio – tempo de nossas narrativas. Mas não é tão claro como se faz para se colocar o tempo subjetivo (o que quer que isso se revele ser) nas experiências que estão acontecendo agora. (STERN, 2007, p. 27). O tempo subjetivo, o agora, é o kairós. O kairós é o tempo do inconsciente do lado direito do hemisfério cerebral. O tempo da mente corresponde ao tempo sagrado. “O tempo sagrado é pela sua natureza própria reversível, no sentido em que é, propriamente falando, um tempo mítico primordial tornado presente. ” (ELIADE, 1992, p. 81). O tempo sagrado situa-se em outra dimensão. Ele permite ao homem, por meio do rito e do mito, do extase e até da análise, adentrar nessa outra dimensão de tempo e dela sair quantas vezes forem necessárias. Todo rito e toda celebração do sagrado possibilita a recriação do tempo primordial que deu origem ao rito e à celebração. Em sentido bíblico, esse tempo sagrado é o kairós. O kairós, a plenitude do tempo (BÍBLIA, GÁLATAS – 4:4) corresponde ao momento em que a manifestação de Deus irrompe na história. É a intervenção do sagrado no khronos. O kairós é o tempo da mente, da percepção, da fantasia, do sonho e do sonhador. O kairós estrutura os conteúdos das memórias implícitas e explícitas nas narrativas. De tal forma que, quando o sujeito acessa um trauma, seja por meio da narrativa, seja por meio do sintoma, seja por intermédio do sonho, ele o faz no microcosmo do presente, no eterno fluir da consciência. O passado tanto influencia o presente quanto é influenciado por ele. O kairós interliga no tempo da mente o passado, o presente e o futuro. Outra característica do momento presente que me intrigava era o fato de ele ter um trabalho psicológico a fazer. É preciso aglomerar e entender o momento enquanto ele está passando, e não depois, e voltar para a próxima ação. Com isso em mente, o título seguinte foi Kairós, a palavra grega para o momento propício, ou o momento em que algo vem a ser. Kairós é uma unidade de tempo tanto subjetiva quanto psicológica. Claramente, o momento presente precisa ter aspectos de kairós porque gera a necessidade de entender o que aconteceu no passado, o que está acontecendo agora e como agir em relação a isso. Ele requer uma completa apreensão dos acontecimentos no momento em que eles se desdobram. (STERN, 2007, p. 15). Nem nas memórias implícitas existem lembranças puras do passado. Na reconstrução do passado pela narrativa, as memórias implícitas e explícitas se interpenetram. “Em suma, a intrincada interdependência entre o significado explícito e a experiência afetiva implícita fica clara no nível local do momento presente. ” (STERN, 2007, p. 222). A memória explícita de um acontecimento implícito é a totalidade do contexto de recordação do presente. “Durante o seu desdobramento, enquanto ele passa do horizonte do passado-do-presente para o horizonte do futuro-do-presente, ocorrem mudanças analógicas das categorias ao longo do seu

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Depressão Nas Crises do Desenvolvimento Humano

Antonio Maspoli DEPRESSÃO NAS CRISES DO DESENVOLVIMENTO HUMANO Introdução A depressão é uma doença solidária; ela acomete todas as pessoas, independentemente de etnia, idade, sexo, classe social, crença, profissão. Todo ser humano pode ficar deprimido. O número de deprimidos na Ásia, na Europa, nas Américas, na África, e, mesmo, no continente Australiano, é proporcionalmente semelhante, com algumas variações devidas, sobretudo, às crenças e ao clima. A depressão acomete mais protestantes do que católicos (JUNG, 1980), contudo não despreza judeus, gregos, gentios e troianos. Apesar de o número de mulheres deprimidas ser um pouco superior ao dos homens, ambos igualmente padecem desse mal. A depressão pode se manifestar ao longo da vida do indivíduo.  A entrada e saída das várias fases de desenvolvimento da vida humana podem ser marcadas por episódios de melancolia. As depressões que precedem as crises do desenvolvimento humano são consideradas normais e às vezes são até positivas, pois preparam o sujeito para se adaptar à nova fase da vida que está nascendo. Algumas dessas crises, todavia, dependendo da duração e intensidade, carecem de acompanhamento médico e psicológico.  DEPRESSÃO NA INFÂNCIA Existem crianças deprimidas. Na infância, a depressão é de mais difícil diagnóstico. Nas crianças, a depressão pode manifestar-se por meio da enurese noturna urinar na cama ou mesmo pela obesidade, hiperatividade e, às vezes, apatia. Cabe lembrar que a apatia é imprópria para a idade infantil. Até os mais novos podem sofrer desse mal obscuro, sendo o diagnóstico, em tais casos, muito complexo, porque as formas como a doença se manifesta variam com a idade, e dificilmente as crianças conseguem exprimir os seus sentimentos por meio de palavras. Por isso, muitas vezes, é necessário compreender a situação por analogias e suposições (GRUNSPUN, 1966, p. 347-351). Atualmente, temos uma atitude preocupante em relação ao comportamento infantil. Especialmente, em relação ao comportamento natural de uma criança que precisa de espaço para se movimentar e vive confinada aos limites de um apartamento. Este pesquisador ouviu recentemente de uma funcionária iluminada de uma creche a sábia observação: as crianças aqui são tratadas como soldadinhos de chumbo. Todos seguem uma ordem do dia: tem hora pra brincar, tem hora para assistir TV, tem hora para dormir, tem hora para comer, tem hora para tomar banho, tem hora para tudo. As crianças são conduzidas em fila indiana para cada atividade. Elas são tratadas como um soldado mesmo. Aquele que reage a isso é considerado hiperativo. Então é encaminhado à psicopedagoga, que o encaminha ao psiquiatra ou neurologista. O médico dá Ritalina para a criança tomar. Aí a criança fica fica normalzinha, normalzinha,  mas sem ânimo nenhum nem para brincar! As crianças não dizem sinto-me mal, e não falam da sua infelicidade. Elas exprimem o seu mal-estar com a linguagem do corpo a que conhecem melhor, com birras, protestos, choro, abatimento, tristeza, desespero mudo, ou retraimento em si próprio, recusa em se comunicar com os outros, apatia, anorexia, diminuição do rendimento escolar etc. Até os quatro anos de idade, é normal a criança manifestar o mesmo comportamento da família por mimetismo. Assim, quando a família está agitada, a criança fica agitada, quando a família chora, a criança chora, quando a família fica deprimida, a criança fica deprimida etc (JUNG, 1972). Ao contrário do que muitos pensam criança também sofre de depressão. A depressão que sempre pareceu um mal exclusivo dos adultos, hoje em dia afeta cerca de 2% das crianças e 5% dos adolescentes do mundo. Diagnosticar depressão é mais difícil nas crianças, pois os sintomas podem ser confundidos com mal criação, pirraça ou birra, mau humor, tristeza e agressividade. O que diferencia a depressão das tristezas do dia-a-dia é a intensidade, a persistência e as mudanças em hábitos normais das atividades da criança. Costuma manifestar-se a partir de uma situação traumática, tais como: separação dos pais, mudança de colégio, morte de uma pessoa querida ou animal de estimação. 1 DEPRESSÃO NA PUBERDADE E ADOLESCÊNCIA Na sociedade contemporânea ocidental, a adolescência é definida e formada por um complexo jogo de forças biológicas, culturais, econômicas e históricas. Esse estado, ao mesmo tempo transitório e demorado que pode chegar a durar uma década ou mais, é um estado diferenciado no qual o jovem não é adulto inteiramente nem criança, mas, compartilha desafios, privilégios e expectativas de ambas as épocas e vive nos dois extremos da faixa etária.  Já adulto para algumas atitudes e ainda é criança para outras. A adolescência é um período de paradoxos em que encontramos maturidade física e sexual, sem ter alcançado ainda a maturidade emocional e cognitiva. Alguns jovens não conseguem atravessar esse período com a devida saúde mental. Nesses casos, é preciso intervir para que o jovem possa retornar seu desenvolvimento e seguir adiante. Na adolescência ocorrem as primeiras mudanças ligadas ao crescimento dos sinais sexuais externos, que fazem as diferenças entre os sexos. A entrada da glândula pineal em funcionamento põe em ação no organismo um jogo complexo entre o desenvolvimento da personalidade, mudanças biológicas, transformações hormonais e de desenvolvimento. A personalidade se transforma, consequentemente, a dependência dos outros, a autoestima, a capacidade de se impor, a segurança, devaneios profundos, a insatisfação com a imagem do próprio corpo, a incerteza das novas expectativas sociais ligadas à ação dos hormônios sexuais são fatores a serem considerados na avaliação do risco de depressão na adolescência. Ao mesmo tempo, o adolescente desperta para o mundo, a natureza e o sexo. É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Tudo isso pode provocar estados depressivos. Nos mais jovens, a depressão pode ser acompanhada de uma diminuição do rendimento escolar, perturbações alimentares anorexia e bulimia e do sono, bem como a tendência para se fechar em si mesmo, afastamento de relações sociais, manifestação de certa agressividade. O auge da crise pode culminar com a entrega ao consumo de álcool e drogas. O adolescente depara-se com novas situações e várias pressões sociais que favorecem  o desenvolvimento de quadros depressivos em jovens mais sensíveis e sentimentais, levando-os a apresentar sintomas de confusão mental, despersonalização, solidão, rebeldia, descontentamento, angústia etc. A depressão

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A Doença Mental No Mundo Antigo

A DOENÇA MENTAL NO MUNDO ANTIGO ANTONIO MASPOLI A psique simplesmente é o espelho do SER, é o conhecimento dele e tudo se move nela. (JUNG, 1988, p. 86). A Doença Mental e Socialmente Construída e Socialmente Determinada Assim como o homem, a doença mental é historicamente construída e socialmente determinada. A depressão é um produto histórico. Consiste no resultado de uma série de ideias agregadas ao longo do tempo. A relação com a depressão, nos diferentes momentos históricos, foi estabelecida a partir de diferentes fatores: a) a estrutura da sociedade; b) a etapa histórica do desenvolvimento da sociedade considerada; c) o estado de compreensão dos problemas emocionais; d) a gravidade da doença; e) a relação médico-paciente; f) fatores genéticos pré-disposição hereditária. Na concepção religiosa, a doença poderia ser considerada unicamente como consequência da culpa e do pecado de nossos pais. O conceito de depressão foi construído a partir de todos esses elementos. Antes de entrarmos no estudo da depressão sobre a ótica da religião, convém considerar a evolução da compreensão histórica da doença. A compreensão da doença não ocorre a partir de cortes epistemológicos, como sugere Thomas S. Kuhn (1977) para a explicação do surgimento da teoria da relatividade e dos saltos quânticos da física. O conceito de enfermidade é também um termo cultural e subjetivo. Isso quer dizer que a enfermidade depende muito mais da evolução histórica e acumulação de conhecimento e experiência dos fenômenos recorrentes, do que de saltos epistemológicos ou mesmo de esquemas de patologização dos comportamentos apresentados. Cabe registrar ainda que, a concepção científica da doença trata-se de um fenômeno recente. A medicina científica tem cerca de cem anos de existência, quando se passou a considerar que o conhecimento humano circula por meio das representações sociais, e que essas não circulam de igual forma em todos os círculos sociais (BERGER, 1973; MOSCOVICI, 1978, p.110-125). Não se pode esperar que o homem comum, de senso comum, possua e aplique a mesma compreensão da doença produzida pela classe médica e pelos círculos mais providos de conhecimento de uma determinada sociedade ou grupo social. O homem comum tem sua própria compreensão da doença e do seu tratamento. É bom lembrar que a sociedade humana sobreviveu séculos sem laboratórios e sem penicilina, sem psiquiatras e sem psicanalistas. E parece que, se saiu bem sem eles.  Até hoje, na Amazônia, os povos da floresta sobrevivem à custa de chás, banhos, infusões de plantas medicinais, rezas e rituais mágicos religiosos. As representações sociais de uma sociedade primitiva se constituem em um  fenômeno complexo e etnocêntrico. Todos os conceitos teóricos utilizados para se compreender as representações dessas sociedades são formulados geralmente em outra classe social, portanto, em outra cultura ou subcultura. No entanto, o pesquisador das ciências humanas e sociais não tem como fugir desse dilema. Tal paradoxo não deve imobilizá-lo no niilismo, antes deve ser mais um fator de motivação para levá-lo a deslindar o novelo da sua própria curiosidade e ignorância das diferenças culturais, nos diversos estágios de desenvolvimento das sociedades humanas, e sua compreensão dos problemas do ser humano. Nesta pesquisa, utilizaremos o conceito de sociedade primitiva para compreender as representações sociais da depressão no contexto da religião. Primitivo, neste contexto, será utilizado como sinônimo de simples, em oposição a complexo; tecnologicamente pouco desenvolvido em oposição a tecnologicamente desenvolvido; mágico, em oposição à racional. Cabe registrar ainda que no pensamento primitivo leva-se em consideração somente a classificação binária: luz e trevas, bem e mal, Deus e Demônio, saúde e doença etc. (DURKHEIM, 1989, p. 485-526). Nas sociedades ditas primitivas, as soluções para os problemas existem concretamente e são sempre compreendidas de forma simplificada, em termos absolutos, a partir da concepção de verdades absolutas em termos científicos, a partir das forças da natureza soluções mágicas e da intervenção da divindade soluções mágico-religiosas, milagrosas. Dizendo de outro modo, para o homem primitivo, os problemas têm sempre soluções muito simples. São considerados apenas produtos de causas naturais ou sobrenaturais. A verdade e a virtude geralmente triunfam sobre a mentira, o bem triunfa sobre o mal, a doença sobre a enfermidade etc. Finalmente, Deus vence o Diabo na terra do sol. Carl Gustav Jung considera um erro acreditar que o pensamento primitivo ocorra somente entre os homens simples das sociedades pouco desenvolvidas (JUNG, 1983, p. 30).  Ao contrário, primitivo pode se referir também à estrutura do pensamento do sujeito moderno que utiliza as mesmas formas de representação daquelas sociedades para compreender a realidade. Não se pode excluir desse conceito, aqueles membros esclarecidos das classes econômicas mais favorecidas que, por exemplo, recorrem à astrologia, ao amuleto e a outras formas de crenças, no intuito de controlar seu destino futuro, controlar o futuro de sua existência, e também seus sentimentos, amores, negócios e profissões. Quando se fala em primitivo neste texto, não se está referindo a pensamentos anacrônicos, a realidades antiquadas e às formas ultrapassadas de pensamento. No conceito da psicologia analítica, primitivo refere-se a uma corrente viva e vigorosa de pensamentos e representações mentais com raízes arquetípicas fortes e profundas. São formas de pensamento que partem das nossas origens mais remotas, continuam ao longo da história humana e chegam até nós e matizam nossos pensamentos e conhecimentos de forma surpreendente, no mais das vezes, determinando nossos comportamentos, inclusive aqueles relacionados à saúde e à doença. Quando nos referirmos ao conceito primitivo de depressão, o faremos a partir de todos esses pressupostos. Essa referência abrange ainda, a compreensão das representações da depressão em sociedades arcaicas que existiram e ainda existem, compreendendo, de igual modo, algumas representações atuais derivadas dessas representações. Este texto busca explicitar o conceito mágico-religioso da doença e da depressão na perspectiva primitiva; compreender a depressão como um fenômeno humano no contexto do campo religioso; caracterizar a depressão como um evento biopsicossocial natural  inerente à condição humana nas várias fases da vida; e apontar as principais estratégias contemporâneas para o enfrentamento e o tratamento da depressão. A Doença Mental na Magia e Na religião George Peter Murdock apresenta uma classificação para a etiologia

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Trauma Transgeracional em Sigmund Freud e Carl Gustav Jung

Trauma transgeracional nas diferentes abordagens – analisa o trauma histórico na Psicologia Cognitiva a partir da apreensão do conceito de desamparo aprendido; avalia o trauma histórico transgeracional no pensamento de Sigmund Freud, especialmente sobre o complexo de Édipo; e fundamenta-se nas concepções de Carl Gustav Jung; na neurociência e epigenética, sobretudo nas pesquisas de Rachel Yehuda et al. (2015). Finalmente, as teorias são analisadas quanto à sua relevância, consistência e aplicabilidade no campo. Publicado em: 10/02/2021 Trauma Transgeracional em Sigmund Freud e Carl Gustav Jung Antonio Maspoli Introdução Trauma transgeracional nas diferentes abordagens – analisa o trauma histórico na Psicologia Cognitiva a partir da apreensão do conceito de desamparo aprendido; avalia o trauma histórico transgeracional no pensamento de Sigmund Freud, especialmente sobre o complexo de Édipo; e fundamenta-se nas concepções de Carl Gustav Jung; na neurociência e epigenética, sobretudo nas pesquisas de Rachel Yehuda et al. (2015). Finalmente, as teorias são analisadas quanto à sua relevância, consistência e aplicabilidade no campo. Trauma Transgeracional em Sigmund Freud No texto “Totem e Tabu”, publicado em 1913-1914, Sigmund Freud (2006a) utilizou-se dos levantamentos feitos por Frazer (1980), na obra “Um ramo de ouro”, sobre a religião totêmica indoeuropeia, com isso, procura conciliar suas teorias psicológicas, especialmente quanto à origem do complexo de Édipo, com base nnaquilo que observou   em sua clínica psicológica, com o comportamento daqueles povos ditos primitivos pesquisados na biblioteca por Frazer. Freud comparou tais dados com os fatos observados em seus próprios pacientes – isso tudo ainda à época da Primeira Tópica. A partir desse estudo e de suas suposições, Freud admite coincidências com a estrutura da personalidade do homem atual. Entre essas coincidências citamos  a teoria edipiana, os conceitos de culpa e outros. O primeiro ensaio do livro “O Horror ao Incesto” trata do tema demonstrado no título. A pesquisa sobre a origem desse horror é realizada através dos totens e tabus das sociedades ditas primitivas. Freud afirma que os totens e tabus ainda existem, em nossa sociedade, sob forma psicológica. Se os totens e, principalmente, os tabus existem, e de maneira mais objetiva na infância, pode-se supor que ou foram criados na infância ou foram transmitidos pela cultura. Não nos deteremos aqui descrevendo essas sociedades totêmicas, passando diretamente as conclusões  que Freud extraiu delas: a) a sociedade totêmica tem por objetivo a exogamia (proibir o incesto); b) o ritual totêmico visa à manutenção desse estado; as evitações complementam as restrições de relação sexual, pois alguns casos não se encaixam nas proibições totêmicas, mas são igualmente indesejados pela sociedade; c) em geral, as proibições totêmicas ocultam o sentido de serem dirigidas essencialmente ao filho homem; d) há a generalização do horror ao incesto naquelas sociedades; e) se há tanta proibição, deduz-se que há muito desejo de fazer o proibido; f) esse horror ao incesto é uma característica essencialmente infantil nos dias de hoje; g) esse comportamento é igual ao da vida psíquica de um neurótico (infantilismo); h) o comportamento de o menino sentir-se atraído pela mãe e irmã é corrigido pela resolução do Complexo de Édipo; i) Essa resolução funda-se na rejeição e repressão que o ser humano faz aos primitivos desejos. Os desejos primitivos do homem mantêm-se atualmente sob forte repressão. A repressão é a base da cultura. É o preço que o homem paga para ser civilizado. A conclusão óbvia, em decorrências desses postulados, é que a neurose é comum a todos nós.  Freud explica a continuidade do totem e especialmente dos tabus, pela transmissão intergeracional da psique coletiva, por intermédio da cultura. Ninguém pode ter deixado de observar, em primeiro lugar, que tomei como base de toda minha posição a existência de uma mente coletiva, em que ocorrem processos mentais exatamente como acontece na mente de um indivíduo. Em particular, supus que o sentimento de culpa por uma determinada ação persistiu por milhares de anos e tem permanecido operativo em gerações que não poderiam ter tido conhecimento dela. Supus que um processo emocional, tal como se poderia ter desenvolvido em gerações de filhos que foram maltratados pelos pais, estendeu-se a gerações novas livres de tal tratamento, pela própria razão de o pai ter sido eliminado. (FREUD, 2006a, p. 159). Freud utiliza o termo psique coletiva para explicar, desse modo, a continuidade, geração após geração, de certas proibições, como a proibição de parricídio, canibalismo e incesto. Anne Schützenberger (1993) afirma que Freud empregava a expressão psique coletiva para fundamentar sua teoria da transmissão intergeracional da regra da proibição do incesto, do horror que essa regra produz. A proibição do incesto é a base para a construção da teoria do Complexo de Édipo (SCHÜTZENBERGER, 1993, p. 17-18). “Uma tal compreensão inconsciente de todos os costumes, cerimônias e dogmas que restaram da relação original com o pai pode ter possibilitado as gerações posteriores receberem sua herança de emoção. ” (FREUD, 2006a, p. 160). E prossegue: Uma reflexão mais demorada, contudo, demonstrará que não estou só na responsabilidade por esse audacioso procedimento. Sem a pressuposição de uma mente coletiva, que torna possível negligenciarmos as interrupções dos atos mentais causados pela extinção do indivíduo a psicologia social em geral não poderia existir. A menos que processos psíquicos sejam continuados de uma geração para outra, ou seja, se cada geração fosse obrigada a adquirir novamente sua atitude para com a vida, não existiria progresso nesse campo, e quase nenhuma evolução. Isso dá origem a duas outras questões; quanto podemos atribuir a quantidade psíquica na sequência das gerações? Quais são as maneiras e meios empregados por determinada geração para transmitir seus estados mentais à geração seguinte? (FREUD, 2006a, p. 159). A transmissão intergeracional em Freud origina-se desses tabus ou desejos proibidos até hoje. Ele afirma que a espécie humana mantém impressões do passado distante, como traços de memória, e que há uma espécie de herança comum transmitida pela cultura. Com esse pressuposto, Freud assinala que o Complexo de Édipo, o medo da castração e a culpa que provocam várias neuroses modernas têm sua origem nos primórdios das hordas. Os jovens machos expulsos se rebelam contra a autoridade do velho macho da tribo, matando-o e redistribuindo as

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