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Depressão e Religião

Depressão e Religião  Antônio Máspoli Resumo: Esta pesquisa é uma abordagem fenomenológica, compreensiva e interdisciplinar da depressão. As pesquisas sobre depressão no contexto da religião ainda são escassas no Brasil. Através da revisão da literatura serão demonstrados alguns estudos que vem sendo realizados neste campo. A depressão é analisada na história da medicina, na moderna psiquiatria, na Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung etc. Finalmente busca também compreender algumas relações entre a depressão e religião. Palavras chaves: Religião e saúde, depressão, religião, abordagem fenomenológica. Abstract: This research is a and comprehensive and phenomenological and and interdisciplinary approach of the Depression. The research on depression in the context of religion are still scarce in Brazil. Through literature review will be demonstrated some studies being done in this field. Depression and analyzed the history of medicine, modern psychiatry in Analytical Psychology of Carl Gustav Jung etc.. Finally, it seeks also to understand some relationships between depression and religion. Keywords: Religion and health, depression, religion, phenomenological approach, analytical psychology of Carl Gustav Jung Resumen: Esta investigación es un enfoque fenomenológica, general Y interdisciplinario de la Depresión. La investigación sobre la depresión en el contexto de la religión son todavía escasos en Brasil. A través de revisión de la literatura se ha demostrado algunos estudios que se realizan en este campo. Depresión y analizado en la historia de la medicina, la psiquiatría moderna, en la Psicología Analítica de Carl Gustav Jung, etc. Por último, se busca también entender algunas relaciones entre la depresión y la religión . Palabras clave: La religión y la salud, la depresión, la religión, el enfoque fenomenológica, la psicología analítica de Carl Jung Gusta Introdução A relação entre doença mental e experiência religiosa foi trabalhada por Carl Gustav Jung e abriu a possibilidade de um diagnóstico diferencial entre saúde mental e vivências puramente espirituais. As vivências espirituais não podem ser confundidas com os quadros da psicopatologia. Por outro lado as afecções psicopatológicas não podem ser consideradas vivências espirituais (JUNG,1980, p. 329-358). As pesquisas sobre depressão no contexto da religião ainda são escassas no Brasil. Esta pesquisa é uma abordagem compreensiva e interdisciplinar da depressão. Através da revisão da literatura serão demonstrados alguns estudos que vem sendo realizados neste campo; A depressão e a religião é analisada na moderna psiquiatria, na Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, busca também, compreender algumas relações entre a depressão e religião. Assim como o homem, a doença mental é historicamente determinada e socialmente construída. A depressão é um produto histórico. Consiste no resultado de uma série de ideias agregadas através dos tempos. A relação com a depressão, nos diferentes momentos históricos, foi estabelecida a partir de diferentes fatores: a) a estrutura da sociedade; b) a etapa histórica do desenvolvimento da sociedade considerada; c) o estado de compreensão dos problemas emocionais; d) a gravidade da doença; e) a relação médico-paciente e f) fatores genéticos (predisposição hereditária). Na concepção religiosa, a doença poderia ser considerada unicamente como consequência da culpa e do pecado de nossos pais. O conceito de depressão foi construído a partir de todos esses elementos.( FOUCAULT,1964). A compreensão da doença não ocorre a partir de cortes epistemológicos, como sugere Thomas Kuhn (KUHN, 1962) para a explicação do surgimento da teoria da relatividade e dos saltos quânticos da física. O conceito de enfermidade é também um termo cultural, subjetivo. Isso quer dizer que a enfermidade depende muito mais da evolução histórica e acumulação de conhecimento e experiência dos fenômenos recorrentes do que de saltos epistemológicos.(FOUCAULT,2002). A medicina científica tem cerca de 100 anos de existência, quando se passou a considerar que o conhecimento humano circula por meio das representações sociais (BERGER & LUCKMANN,1990) e que essas não circulam de igual forma em todos os círculos sociais. (MOSCOVICI, 1978, p. 110-125). Não se pode esperar que o homem comum, do senso comum, possua e aplique a mesma compreensão da doença produzida pela classe médica e pelos círculos mais providos de conhecimento de uma determinada sociedade ou grupo social. O homem comum tem sua própria compreensão da doença e do seu tratamento. É bom lembrar que a sociedade humana sobreviveu séculos sem laboratórios e sem penicilina, sem os benzodiazepínicos e sem a fluoxetina (Prozac), sem psiquiatras e sem psicanalistas. E parece que se saiu bem sem eles. Até hoje, na Amazônia, os povos da floresta sobrevivem às custas de chás, banhos, infusões de plantas medicinais, rezas e rituais religiosos. (TAMAYO, 1988,p.22-59) escreveu uma história da enfermidade ao longo da história que será tomada como referência para uma classificação da depressão a partir das concepções primitivas da crença. Para ele existem cinco formas ditas primitivas de compreender a etiologia da enfermidade: a) conceito mágico da enfermidade; b) conceito religioso da enfermidade; c) a enfermidade como algo exógeno – introdução de um objeto no corpo; d) possessão – introdução de um espírito no corpo; e) perda da alma. Atualmente alguns pesquisadores tem se debruçado sobre as relações entre depressão e religião. Um importante e sério trabalho conduzido por Smith & McCullough (SMITH & McCULLOUGH, 2003, pp. 614-636) mostrou que a associação entre religiosidade e depressão é mais forte em estudos que envolvem pessoas que estão expostas a eventos estressantes da vida. Os estudos geralmente apontam que a religiosidade pode produzir esperança, apoio social e uma visão de mundo capaz de suportar os eventos estressores e os sofrimentos da vida. Entretanto, eles também notaram que a religiosidade extrinsecamente motivada pode estar associada a um risco maior de sintomas depressivos. Moreira-Almeida, Lotufo Neto & Koenig (LOTUFO & KOENING, 2006, pp. 1416-1446) realizaram um trabalho de revisão sobre religiosidade e saúde mental, no qual mostra que maiores níveis de envolvimento religioso estão associados positivamente a indicadores de bem-estar psicológico e a menos depressão. Márcia Gonçalves (GONÇALVES et alii 2000, p. 17), no trabalho Religiosidade e Saúde, conclui que pacientes acometidos de patologias graves, como os portadores de neoplasias, poderiam se beneficiar se nos cuidados a eles houvesse parcerias com instituições religiosas para cuidados espirituais. Koenig et alii (KOENING ET alli, 1998, pp. 536-542) realizaram o único estudo prospectivo para investigar o impacto da religiosidade no curso das doenças depressivas. Os autores pesquisaram 87 pacientes adultos de terceira idade hospitalizados por doenças clínicas, e perceberam que a motivação religiosa intrínseca estava associada a remissão mais rápida da depressão, num seguimento durante 47 semanas. Pérsio Gomes de Deus,( DEUS, 2010, p. 19-58) escreveu um ensaio sobre Depressão no Contexto da Psiquiatria e da Religião onde busca relacionar o papel da fé e da religião no tratamento de 60 pacientes deprimidos. Dâmaris (MALTA, 2010, p. 95-125) no artigo Angústia, fé e sentido da vida, a partir de uma leitura fenomenológico existencial, propõe a distinção entre angústia, tristeza e depressão e qual o papel da fé no dilema humano da angústia. Gomes,(GOMES, 2010, p. 125-249), apresenta um ensaio sobre

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Culpa e Graça

Culpa e Graça Antonio Maspoli Introdução Existem conceitos e experiências humanas, arraigadas no ocidente que independem de credo, sexo, raça ou mesmo religião. A culpa é um destes fenômenos. A sociedade ocidental desde o liberalismo teológico do século XIX, especialmente sob a influência da teologia da morte de Deus vem tentando resolver o problema da culpa. A psicanálise também caminhou nesta direção. Em alguns meios psicanalíticos acreditou-se, inclusive, que a destruição pura e simples do conceito cristão de pecado seria suficiente para liberar toda a humanidade ocidental do fardo terrível da repressão e da culpa. Alguns psicanalistas, à semelhança de Wilhem Reich, dedicaram suas vidas e trabalharam em suas pesquisas para este fim. O resultado alcançado parece estar longe de resolver o problema da culpa e da responsabilidade humana pelos seus atos, sejam eles bons ou maus. A psicanálise enfrenta uma de suas piores crises de relevância, frente aos velhos conflitos, as novas demandas e novas descobertas da neurociência no mundo contemporâneo. Hoje Reich já passou a ser um dos psicanalistas quase esquecidos. A religião e a experiencia religiosa trouxeram de volta os conceitos de pecado e culpa para assombrar o homem pós-moderno. Joseph Campbell, et all (1986) conceitua culpa como: “O sentimento que uma pessoa tem de ter errado, violado algum princípio ético, moral ou religioso. Associados de modo típico a essa consciência estão um grau muito baixo de autoestima e um sentimento de que o erro cometido deve ser expiado ou compensado. ” (CAMPBELL, p. 142). Otto Fenichel, (1981), parece concordar com esta definição, quando afirma que “Os sentimentos de culpa que acompanham a prática de uma maldade e os sentimentos de bem-estar que resultam do cumprimento de um ideal são os modelos normais seguidos pelos fenômenos patológicos da depressão e da mania ” (FENICHEL, p. 96). De modo geral a culpa nasce quando o homem age contra a sua própria consciência e desconsidera em seus atos a norma ética da busca pelo bem comum. Ou dizendo de outro modo: “Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles. Esta é a lei e os profetas.(Mateus 7:12)” As conceituações psicológicas, todavia, desconsideram em suas assertivas as afirmações bíblicas para as origens e o problema humano da culpa. A culpa tem espectros multifacetados na explicação de sua gênese. A fim de ajudar o leitor a compreender algumas questões relevantes relacionadas com o tema da culpa apresentaremos alguns fatores importantes para se compreender o problema da culpa. E discutiremos alguns caminhos teológicos e psicológicos a fim de buscar solução para este dilema humano. A culpa arquetípica ou primordial na teologia bíblica O ocidente judaico cristão vai buscar a gênese teológica da culpa no chamado pecado original, o pecado adâmico, quando Adão comeu da árvore do conhecimento do bem e do mal e desobedeceu a Deus, fato este amplamente narrado em Gênesis 2 e 3. Nesta interpretação o homem teria herdado a culpa desta transgressão e já nasce devedor perante o Criador. A culpa do primeiro homem lhe é imputada e a questão, segundo a qual o homem é pecador porque peca, após adquirir consciência, carece de relevância posto que ele já nasce pecador. Daí não importar a pergunta se o homem peca porque é pecador? Ou se o homem é pecador porque peca? Pecando ou não, segundo a tradição cristã, o homem nasce pecador diante de Deus. Na teologia bíblica surge um axioma mais consistente, à luz de Romanos 7, o homem peca porque é pecador. O pecado neste caso não se refere apenas a um ato moral consciente, mas à própria natureza humana, (ROMANOS. 7:24). Por inferência podemos afirmar o mesmo sobre a culpa. O ser humano nasce devedor, culpado diante de Deus, embora em sua primeira infância até os quatro anos de idade, o homem ainda não tenha nenhuma consciência de seus atos morais, esta inconsciência não o exime da culpa primordial, por isso, a criança, desde o ventre materno, depende da graça especial de Deus para o perdão desta culpa e para a sua salvação pessoal. No caso da criança cabe registrar que o perdão e a salvação em Cristo lhes são imputados automaticamente pelo Espírito Santo, independentemente de qualquer credo ou vivência religiosa. Em decorrência desse axioma, o homem peca, porque é pecador. A partir do momento que, em seu desenvolvimento ontogenético, a criança adquire consciência do pecado, ela passa a ser pecadora também porque peca. Neste caso, temos a culpa pela responsabilidade individual sobre uma transgressão cometida perante a lei de Deus. Como pode ser depreendido pela experiência de Caim: “E o Senhor disse a Caim: Por que te iraste? E por que descaiu o teu semblante? Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à tua porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo” (GÊNESIS 4: 6-7). A experiência de Davi no Sl. 51 corrobora assim a experiência de Caim. “Eis que fui nascido em iniqüidade, E em pecado me concebeu minha mãe” (SALMOS 51:5). Este relato bíblico, arquetípico, não deixa dúvida sobre a responsabilidade humana sobre os seus desejos e suas ações. No entanto, este é apenas um lado da moeda, o fator consciente da culpa. No processo de culpabilidade existem ainda fatores inconscientes. O homem pode cauterizar a sua consciência, enganá-la, tal como afirma Isaias ”Tal homem se pascenta de cinzas; o seu coração enganado o iludiu, de maneira que não pode livrar a sua alma, nem dizer: Não é mentira aquilo em que confio” (ISAIAS 44:20). Negar o pecado, acostumar-se a ele, cauterizar a própria consciência pode livrar o indivíduo da culpa consciente, mas não o livrará jamais da culpa inconsciente. Especialmente, porque o inconsciente é ético e responsável (Jung, 1988). O inconsciente continuará a apresentar a conta a ser paga em decorrência do pecado, perante o pecador. E esta conta torna-se cada vez mais elevada, pois pode traduzir-se em sintomas de doenças psicossomáticas, à semelhança do que ocorreu com Davi no Sl. 32. A vivência continua da culpa pode baixar o

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Psicologia Comunitária numa abordagem conceitual

Psicologia Comunitária numa abordagem conceitual Community Psychology: a conceptual approach Antonio Maspoli de Araujo Gomes Universidade Presbiteriana Mackenzie Universidade Metodista de São Paulo Resumo: Este artigo apresenta as principais tentativas de conceituação das correntes teóricas sobre a psicologia comunitária, ligadas a psicologia social. A partir da análise dos dados obtidos podemos afirmar que a Psicologia Comunitária é um saber em construção, pragmático, derivado da Psicologia Social. Concluímos também que muitas das teorias referenciadas e das técnicas citadas pelos psicólogos que trabalham em Psicologia Comunitária são derivadas dos referenciais teóricos da Psicologia Comunitária. Palavras-chave: Psicologia Comunitária, Psicologia Social, Comunidade, Teorias Psicológicas, Técnicas Psicológicas. Abstract: This research presents the routes treaded by Community Psychology, from its beginning to present date. Through the analysis of the data we can state that Community Psychology is a pragmatic knowledge being structured, with its origins in Social Psychology. We also conclude that many of the reference theories and techniques mentioned by the subjects derive from existing Community Psychology theories references. Key words: Community Techniques, Social Psychology, Community, theories Psycoligicals Theories references, Psycologficals Techniques. 1. Introdução O termo Psicologia Comunitária ainda é bastante novo e amplo, sendo, por isso mesmo, de difícil conceituação. O termo em si é ambíguo e varia de acordo com o referencial teórico considerado e/ou a práxis do psicólogo que o define. São comuns os termos “Psicologia na Comunidade” (Bender, 1978); “Psicologia do Desenvolvimento Comunitário” (Escovar, 1979); “Saúde Mental Comunitária” (Berenger, 1982); “Psicologia “Comunitária/na Comunidade” (Bonfim, 1992); etc. Esta ambigüidade de termos para definir uma das ramificações da Psicologia Social, não se constitui, por si só, num indício de fragilidade. “Esta indefinição não decorre de insuficiência, mas é própria da constituição desse saber”. (Nascimento, 1990).D’Amorim (1980, p.104) chama a atenção para algumas vantagens dessa indefinição, diz ela: “Esta dificuldade de identificação está na base de duas implicações para o treinamento do psicólogo comunitário: a fragmentação do conceito de psicologia comunitária valoriza a criatividade e a flexibilidade no treinamento dos psicólogos e o respeito pelas diversas concepções neste domínio embora um esforço deve ser feito para valorizar os elementos comuns e manter os canais de comunicação”. Os psicólogos sociais vem realizando um esforço para definir a Psicologia Comunitária e superar a ambigüidade apontada acima, e convém considerá-lo. Bender (1978, p. 18): “Eu a definiria como uma tentativa para tornar mais efetivos os campos da Psicologia Aplicada no fornecimento de seus serviços e mais receptivos às necessidades e carências das comunidades por eles servidas”. Escovar (1979, p. 2): “A Psicologia Comunitária, ou psicologia do desenvolvimento, é uma espécie de jardim com caminhos que se bifurcam e de onde grupos de psicólogos tomam distintos rumos na base de decisões axiológicas ou políticas”. Montero (1980, p.3), influenciado por Escovar (1979), propõe a seguinte definição: “uma psicologia para o desenvolvimento, entendido este como o processo mediante o qual o homem adquire maior controle sobre seu meio ambiente”. Marin (1980, p. 71): “Em um sentido, a Psicologia Social Comunitária desenvolvida na América Latina é uma aproximação multidisciplinar para a solução de problemas sociais”. Brea (1985, p. 169): “A ausência de um marco teórico articulado nos leva a definir a psicologia comunitária como a aplicação de conhecimentos da psicologia em um determinado contexto geográfico social; este modelo serve de correção para os diferentes modelos teóricos que integram esta disciplina”. Gallindo (1981, p.13): “A Psicologia Comunitária é um movimento dentro de um campo maior de psicologia aplicada e que se caracteriza como uma nova abordagem para se lidar com os problemas de comportamento humano. Ela enfatiza mais o ambiente social do que fatores intrapsíquicos como determinantes da saúde mental”. Andery (1986, p. 203): “A palavra psicologia na comunidade vem sendo usada para designar a instrumentalização de conhecimentos e de técnicas psicológicas que possam contribuir para uma melhora na qualidade de vida das pessoas e grupos distribuídos nas inúmeras aglomerações humanas que compõem a grande cidade” Franco (1988, p. 70): “A Psicologia Comunitária se caracteriza por trabalhar com sujeitos sociais em condições ambientais específicas, atento às suas respectivas psiques. Seus objetivos se referem a melhoria das relações entre os sujeitos e entre estes e a natureza. Nesta perspectiva está todo o esforço para a mobilização das comunidades na busca de melhores condições de vida”. Uma análise dessas diversas definições demonstra alguns aspectos comuns a Psicologia Comunitária, embora a mesma seja o estuário de diferentes correntes psicológicas. Uma visão pragmática da psicologia, isto é, uma preocupação com a aplicação prática dos achados da psicologia a situações sociais concretas, e pouco interesse com questões de natureza teórica e científica. Uma ênfase psicológica voltada para a melhoria da qualidade de vida das comunidades como objeto do saber psicológico. O primado das questões interpessoais, a comunidade, em lugar da preocupação tradicional da psicologia, o indivíduo e as questões intrapsíquicas. O termo Psicologia Comunitária, portanto, inclui os estudos que se vêm realizando na Psicologia Social Aplicada às Comunidades, o Movimento de Saúde Mental Comunitário, a Psicologia do Desenvolvimento Comunitário e o Movimento de Ação Comunitária na América Latina, e outros fazeres de psicologia relacionados a comunidade. Este termo pode ser compreendido como uma visão pragmática da psicologia, que busca o desenvolvimento e a aplicação de técnicas psicológicas que sejam relevantes para a melhoria da qualidade de vida da comunidade. 2. Conceituação de Comunidade Outro conceito importante e necessário à compreensão da Psicologia Comunitária é o conceito de comunidade, seu objeto material e campo de atuação. O termo Comunidade, utilizado hoje em dia na Psicologia Social, é bastante elástico e capaz de incluir em seu escopo desde um pequeno grupo social, um bairro, uma vila, uma escola, um hospital, um sindicato, uma associação de moradores, uma organização não – governamental, até abarcar os indivíduos que interagem numa cidade inteira. E as definições de comunidade tem sido cada vez mais abrangentes pois se destinam a cobrir toda esta gama de habitats sociais. Schilling (1974), na obra “História das Idéias Sociais, indivíduo, comunidade e sociedade”, afirma que: “Comunidade designa qualquer corpo social mais ou menos importantes (matrimônio, família, parentesco,

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A Psicologia da Conversão e Adesão no Protestantismo

A Psicologia da Conversão e Adesão no Protestantismo Brasileiro  Antonio Maspoli Motivation for conversion and adherence to Brazilian Protestantism Resumo: O Brasil vive um dinamismo sem precedentes no campo religioso. De acordo com o IBGE, censo nacional de 2000 e 2010, o crescimento das igrejas evangélicas e também o número de pessoas que não têm qualquer pertença religiosa são expressivos. Tradicionalmente, o protestantismo reforçou o seu pxcrescimento através do processo de conversão. Este é um fenômeno comum no Brasil contemporâneo..A partir da análise da literatura revista e do depoimento de 100(cem) sujeitos os objetivos atingidos por esta pesquisa foram a) analisar se a experiência de conversão ainda é válida como modo de entrada no protestantismo; b) quais as motivações para o comportamento de conversão e adesão ao protestantismo. Palavras-chave: Psicologia da Religião, Conversão Religiosa, Motivação, Protestantismo, Adesão Religiosa. Abstract: Brazil is experiencing an unprecedented dynamism in the religious field. According to the IBGE, the national census of 2000 and 2010, the growth of evangelical churches and the number of people who have no religious affiliation are significant. Traditionally, Protestantism has increased its growth through the conversion process. A review of the literature reveals a lack of studies on the subject. This is a common phenomenon in contemporary Brazil.From the journal literature review and the testimony of one hundred (100) individuals the goals achieved by this research were a) examine whether the conversion experience is still valid as input mode in Protestantism; b) what are the motivations for conversion behavior and adherence to Protestantism. Key-words: Psychology of Religion, Conversion, Motivation, Protestantism, Religious Accession. Introdução O tema da conversão vem despertando o interesse de pesquisadores no Brasil. Entretanto, as pesquisas sobre a conversão e adesão, no Protestantismo brasileiro, são escassas. O renascimento do tema está ligado à efervescência religiosa e espiritual que marcou a segunda metade do século XX e o inicio do século XXI, criando a necessidade de reflexão sobre a conversão e o espaço próprio para as pesquisas, nesse campo, em ciências humanas e sociais. A conversão trata–se de um fenômeno bastante comum e intenso no Brasil contemporâneo, como bem demonstrou o censo religioso de 2000 e 2010. A conversão precede o aparecimento de todas as grandes tradições religiosas, especialmente as monoteístas, e fornece um dos modos de expressão do encontro entre o homem e a divindade, seja na experiência individual, seja na étnica ou na coletiva (Mossiere, 2007, pp. 2-3). A revisão da literatura sobre conversão no protestantismo brasileiro encontrou dificuldades quanto a escassez de pesquisas sobre o tema. Por outro lado, textos sobre conversão em pesquisas de língua inglesa são abundantes. Destacamos alguns: A. Buckser and S. D. Glazier – The Anthropology of Religious Conversion ( 2005); Coraline Buxant e and Vassilis Saroglou and Jaque Scheuer – Contemporary conversions: compensatory needs or self-growth motives(2009); D. Gordon – La Conversion religieuse(1974) ; Stephen Happel and James Walter- Conversion and discipleship: a christian foudation for ethics doctrine(1986); R. W Hefner – Historical and Anthropological Perspectives on a Great Transformation.Samuel Southrad and H. Newton Malony – Handbook of Religious Conversion( 1992). No Brasil registra-se as contribuições de Edênio Valle(2013:2002) ) e Geraldo José de Paiva (2013) no campo da psicologia social da conversão religiosa; e a pesquisa coordenada por Antonio Maspoli de Araújo Gomes: A Psicologia Social a Conversão Religiosa(2013).Outra pesquisa importante é a realizada por Rafael Shoji, Uma perspectiva analítica para os convertidos ao Budismo japonês no Brasil (Vale, 2002, p. 6). A partir da análise da literatura revista e do depoimento de 100(cem) sujeitos os objetivos atingidos por esta pesquisa foram a) avaliar se a experiência de conversão ainda é válida como modo de entrada no protestantismo; b) analisar quais as motivações para o comportamento de conversão e adesão ao protestantismo. A análise dos resultados foi realizada de acordo com o modelo teórico formulado por BARDIN (1977), aplicado por GOMES (1995) em sua pesquisa sobre a práxis do psicólogo na comunidade. Os dados da entrevista foram submetidos à análise de face dos conteúdos. Esta pesquisa seguiu as recomendações de PAIVA (2008). As respostas foram analisadas considerando-se as próprias crenças protestantes sobre o Protestantismo. Conversão na psicologia social da religião O campo de interesse da Psicologia Social da Religião situa-se no espaço destinado aos fenômenos que acontecem no campo da consciência e do inconsciente do sujeito. No evento da conversão, o que interessa à Psicologia Social da Religião são os acontecimentos que se reportam às cognições, sensações, emoções relativas aos grupos de referência, e as mudanças decorrentes desses fenômenos no comportamento do sujeito. Assim os primeiros psicólogos (James, 1902; 1890) estudaram o fenômeno da conversão, procurando demonstrar as diversas forças psicológicas que nele operam. Desde os primórdios da psicologia, portanto, a conversão é considerada como um processo natural e um comportamento humano tão sujeito às leis ordinárias da psicologia como qualquer outro. Embora a conversão geralmente ocorra no campo das religiões, pode acontecer em outros espaços alheios às religiões, como a ideologia e a política, sendo, portanto, um comportamento que, no mais das vezes, não carece de eventos sobrenaturais e transcendentes para ocorrer. Nos primórdios da psicologia Willian James (James, 1995) estudou o fenômeno da conversão, utilizando o método indutivo e procuraram compreender as diversas forças psicológicas que operam na conversão. A conversão para James foi considerada como um processo natural e tão sujeito às leis ordinárias da psicologia como qualquer outro. Outro aspecto que convém considerar do ponto de vista puramente psicológico, como apontou William James (James, 1995), refere-se ao fato de que a conversão é um comportamento humano que ocorre no campo das religiões e que, por outro lado, pode acontecer em espaços humanos estanhos às religiões, sendo, portanto, um comportamento que, no mais das vezes, não carece de eventos sobrenaturais e transcendentes para ocorrer. James combina nesta obra a fenomenologia e o pragmatismo. A fenomenologia, definida como a ciência da experiência da consciência, ou seja, o exame do processo dialético de constituição da consciência desde seu nível mais básico, o sensível, até as formas mais elaboradas da consciência de si que levariam finalmente à apreensão do absoluto. Isto é, o conhecimento como uma volta às coisas mesmas, aos fenômenos, aquilo que aparece à consciência, que se dá como seu objeto intencional. James deixa de lado a religião institucional para dedicar-se à compreensão da experiência religiosa individual.

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Espírito protestante, educação e negócios em São Paulo do Século XIX

Espírito protestante, educação e negócios em São Paulo do Século XIX Dr. Antonio Maspoli SINOPSE Este trabalho consiste na aplicação da teoria das representações sociais a fim de compreender a influência das crenças na educação em São Paulo em meados do século XIX e relacionar a contribuição das Escolas Presbiterianas fundadas neste período com a formação da mentalidade empresarial de São Paulo O autor buscar demonstrar que o Mackenzie College contribuiu de forma significativa para a formação do empresariado em São Paulo entre 1870 a 1914. Palavras Chaves: Protestantismo, Ética Protestante; Educação; São Paulo; Max Weber; Mackenzie College; Mentalidade Empresarial ABSTRAST This work consists in the application of the social representation theory in order to comprehend the influence of belief in the education in São Paulo in the middle of the XIX Century and also to relate the contribution of the Presbyterian Schools, founded in this same period, with the social construction of the entrepreneurial mentality of São Paulo. Demonstrate that the Mackenzie College contributed significantly to the formation of entrepreneurial in São Paulo between 1870 and 1914. Keys: Protestantism; Protestant Ethics; Education; Saint Paul; Max Weber; Mackenzie College; Formation of Industrial Entrepreneurs. Introdução Após a exaustiva leitura não foi difícil traçar os objetivos que nortearam esta pesquisa, dificílimo foi percorrer os caminhos necessários para atingi-los. Isto porque a educação brasileira até o século XIX ainda carece de uma historiografia mais consistente que ofereça ao pesquisador os elementos necessários a reconstrução dos fatos históricos em sua totalidade para possibilitar a sua compreensão de forma mais congruente. * Antônio Maspoli de Araújo Gomes –Teólogo e Psicólogo. Doutor em Ciências da Religião pela UMESP. Tem Pós Doutorado pelo IEA da USP. Professor Titular da Universidade Presbiteriana Mackenzie e Pesquisador Convidado do Laboratório de Psicologia Estudos da Religião do Instituto de Psicologia da USP. O cenário que foi sendo desvelado ao longo deste trabalho demonstrou que o sistema econômico que imperava na colônia do Brasil prescindia da educação para o seu funcionamento e desenvolvimento porque dependia mais do trabalho braçal que da genialidade dos seus atores. A sustentação deste sistema econômico repousava numa sólida aliança entre os latifundiários e a coroa portuguesa e entre esta e a Igreja Católica Apostólica Romana. A aliança entre a coroa portuguesa e os latifundiários garantia a monocultura de exportação, primeiro do açucar e posteriormente do café. Já a aliança entre a coroa portuguesa e a igreja através do padroado, instrumento este que foi confirmado por D. Pedro I e por D. Pedro II e que vigorou até a proclamação da república em 1889, oferecia a legitimação que aquele sistema de exploração carecia. O padroado garantia dentre outras coisas a hegemonia da Igreja Católica na educação brasileira. Privilégio este que se manteve através dos tempos até a criação das escolas missionárias protestantes presbiteriana em meados do século XIX quando esta hegemonia foi quebrada pela ousadia dos missionários presbiterianos que pretendiam fundar nos trópicos o sistema educacional da igreja reformada segundo o qual ao lado de cada igreja deve haver uma escola. A educação ministrada pelas ordens católicas que tomaram o lugar dos jesuítas após a reforma pombalina em 1759 continuou garantindo a formação de súditos cordatos e conformados a ordem estabelecida. Os esforços da Coroa para ilustrar o Brasil a partir da chegada da família real portuguesa em 1808, foram localizados na Bahia, no Rio de Janeiro em São Paulo e Pernambuco, no entanto tais esforços eram voltados para as próprias necessidades da Coroa, isto é, a formação mão de obra especializada destinada ao funcionalismo público que atendessem as necessidades do Estado Português. Médicos, advogados e engenheiros militares estavam na base do funcionalismo público de então e, por isso mesmo, este modelo educacional não incluía um projeto para a massa da população que continuou analfabeta e como bem demonstram o censo de 1872 quando aponta para altos índices de analfabetismo na cidade de São Paulo. Nesta cidade o analfabetismo beirava os 90 % apenas entre os homens livres, excluindo-se deste número os escravo que não eram poucos. Analfabetos e excluídos não eram apenas os escravos negros. Havia brancos escravos, embora quase nenhum historiador faça menção eles. A gama de analfabetos compreendia aquela maioria absoluta da população empobrecida que dava sustentação ao modelo econômico baseado no extrativismo e numa agricultura voltada para a monocultura de exportação de produtos primários , como bem demonstrou Prado Júnior (1972) e Freire, (1993), inclusive em São Paulo como comprova o trabalho de Antônio Cândido, Os Parceiros de Rio Bonito, estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida. Em face deste estado de coisas novos atores entram em cena para mudar este quadro. A bem da verdade havia no Brasil uma elite intelectual insatisfeita com o cenário econômico, político e educacional. Em São Paulo, já no primeiro quartel do Século XIX a Câmara da Província acolhera projeto de José Bonifácio de Andrada Silva e propunha a criação de uma Universidade que atendesse as necessidades de modernização e industrialização do pais, projeto este que só veio se concretizar na criação da Academia de Direito do pátio do colégio no Largo de São Francisco, na cidade de São Paulo em 1828, mesmo assim esta Academia, orgulho dos paulistas, nasce umbilicalmente ligada a Igreja Católica quer pela sua biblioteca que fora doada por um bispo falecido, quer pelo seu corpo de professores, em sua maioria ligados ao clero católico de São Paulo. A Faculdade de ciências Jurídicas e Sociais do Largo de São Francisco formará grande juristas para todos os estados brasileiros. Este se transformam em grande tribunos e políticos nas Câmaras e Assembléias Provinciais ou na Federal. São os bacharéis dos quais falou Gilberto Freire em sua obra Casa grande e Senzala, (1977) responsável pelo avanço do nosso sistema jurídico mas responsáveis de igual modo pela nossa cultura bacharelesca sem nenhum sentido pragmático em sua aplicação. Enquanto isto a Europa Protestante e os Estados Unidos praticamente já haviam erradicado o analfabetismo posto que precisavam ensinar a ler e a escrever aos

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O messianismo milenarista e o mito do eterno retorno uma leitura a partir da psicologia da Carl Gustav Jung

O messianismo milenarista e o mito do eterno retorno uma leitura a partir da psicologia da Carl Gustav Jung Dr. Antonio Maspoli Resumo: Fenômenos messiânicos foram pesquisados sob diversos aspectos, mas a questão psicológica quase sempre foi deixada de lado. A análise destes fenômenos sob a perspectiva psicológica pode contribuir para a compreensão de importantes movimentos sociais ocorridos no Brasil em meados do século XIX e na primeira metade do século XX. Esta pesquisa busca: explicitar as diferentes abordagens do messianismo e milenarismo no Brasil e explicitar a contribuição da psicologia de Carl Gustav Jung para o estudo do mito do eterno retorno no messianismo. Palavras-chave: messianismo, psicologia histórica, messianismo judaico-cristão, messianismo no Brasil. 1. Estudos sobre o messianismo no Brasil O fenômeno messiânico (SILVA, 2006, pp. 14-18) do campo religioso tem uma história recente na academia brasileira. Fenômenos como Canudos, Contestado, Pedra Bonita e Caldeirão foram pesquisados sob diversos aspectos: político, militar, social, econômico etc. No entanto, esses fatos ainda não foram considerados sob a perspectiva da variável psicológica, que quase sempre foi deixada de lado nas pesquisas, como algo de menor importância, seja pela falta de espaço na academia para pesquisas dessa natureza, seja pela exigüidade de pesquisadores interessados nesse tema. A análise desses fenômenos sob a perspectiva psicológica pode contribuir para compreender importantes movimentos sociais ocorridos no Brasil em meados do século XIX e na primeira metade do século XX, como, por exemplo, a relação entre o êxodo rural e o advento do pentecostalismo e do neo-pentecostalismo. Pretende-se também colaborar para inserir na memória nacional aspectos relevantes relacionados à subcultura das classes sociais empobrecidas e excluídas da cadeia produtiva e também das grandes vertentes do cristianismo tradicional, seja do catolicismo romano, seja do protestantismo histórico. A história desses movimentos foi contada geralmente a partir da perspectiva dos vencedores, das elites dominantes. Tais narrativas tendem a privilegiar aspectos sociológicos importantes para a cultura destas e a relegar para segundo plano aqueles aspectos relevantes para a compreensão do fato social total. Essa forma de abordagem tem levado invariavelmente ao esquecimento e, por vezes, obnubila a importância desses fenômenos para o entendimento da história das minorias, ou, dizendo de outro modo, joga no obscurantismo a história dos vencidos. Este procedimento pode levar ao esquecimento de aspectos importantes da subcultura e dos bens simbólicos desses movimentos religiosos (no caso de Canudos, a história foi contada pelos vencedores; e, na história do Caldeirão, silenciada por vencidos e vencedores). O fenômeno religioso messiânico-milenarista vem sendo pesquisado no Brasil desde meados do século XIX. Inicialmente explicado a partir de interpretações biopsicológicas e ambientalistas com Nina Rodrigues (2006), Euclides da Cunha (1966), Josué de Castro (1965), dentre outros, posteriormente passou a ser interpretado a partir de variáveis sociológicas, numa concepção materialista dialética, mormente com Rui Facó (1976) na obra Cangaceiros e Fanáticos. Mais recentemente, Maria Isaura Pereira de Queiroz (1976) realizou uma tipologia desses movimentos. Importante também tem sido a contribuição de Renato Queiroz (1995) para se compreender o fenômeno milenarista contemporâneo, como, por exemplo, o fenômeno de Catulé. José Lins do Rego (1939) e Rubim Santos Leão de Aquino (2006, pp. 18-22) contaram a história de Pedra Bonita; Douglas Teixeira Monteiro (1974) e Paulo Pinheiro Machado (2006, pp. 18-22) estudaram o Contestado; Euclides da Cunha (1966) descreveu Canudos; Lopes (1991) pesquisou o Caldeirão; Monteiro (1977) estudou Juazeiro do Norte; Renato Silva Queiroz (1995) estudou o Catulé; Zicari Costa de Brito (2006) escreveu Santa Dica, a Santa Ressuscitada de Goiás; e Cláudia Mentz Martins (2006, pp. 30-34) escreveu Os Muckers, os fiéis armados de Jacobina. Mais recentemente, foi publicada a obra Os Aves de Jesus em Juazeiro do Norte, por Roberta Bivar Carneiro (CARNEIRO; MARTINS, 2006, pp. 38-42). Esses movimentos messiânico-milenaristas foram pesquisados a partir das variáveis histórico-sociais sem, contudo, considerar a importância da religião, dos símbolos, mitos e ritos, para a consecução da construção do imaginário dessas comunidades em tais eventos. Maria Isaura Pereira de Queiroz (1976) destaca-se no Brasil pelas pesquisas no campo do fenômeno messiânico. Essa autora, contudo, deixa claro na introdução da sua obra que a esfera do seu trabalho será o conflito social pela posse da terra como base para os movimentos messiânicos milenaristas. Para ela, o conflito social é entendido como o choque entre o latifúndio e as populações sem terra, marginalizadas e empobrecidas. O sagrado, apontado como condição pré-existente para a ocorrência desse fenômeno, não é considerado. O modelo destacado pela pesquisadora para a compreensão do messianismo é sociológico. A variável religiosa, especialmente aquela da tradição judaico-cristã e aquela de natureza protestante, ainda não foi pesquisada. Ainda não se tem notícias de trabalhos sobre o messianismo milenarista brasileiro a partir da perspectiva da psicologia social histórica nem de outras importantes correntes psicológicas. Os sociólogos definem a espera messiânica como a ânsia pela vinda de um enviado divino que, dotado de poderes extraordinários, restaurará a ordem entre aqueles que nele crêem. Desroche (2000, pp. 21-22) busca estabelecer as origens do termo messianismo na teologia, na história e na sociologia. a) O sentido teológico. Em sentido estrito, este termo deriva das fontes do cristianismo, da área cultural predominantemente cristã. Em sentido lato, o messianismo designa o corolário de doutrinas e crenças judaicas relativas ao Messias prometido no Antigo Testamento. Refere-se aos movimentos que prometem a vinda de um enviado de Deus, chamado para restabelecer sobre a terra a prefiguração do tempo primordial. Um reino marcado pela justiça, paz e a inocência das origens. O messianismo em sentido teológico aponta para a volta ao Paraíso perdido de John Milton. b) O sentido histórico-sociológico. O messianismo representa, neste caso, a herança mnêmica e social das doutrinas religiosas comuns do ocidente que prometem o advento do céu na terra, a felicidade perfeita. Esta utopia acontece sob a liderança de uma pessoa sobre um povo, um partido, um movimento coletivo etc. no seio dos quais as reformas – tanto eclesiásticas quanto políticas, econômicas ou sociais – são apresentadas na forma de ordens ou normas identificadas com missões, ou mesmo emissões divinas. O messianismo culmina aqui com o estabelecimento do status de cidadão deste novo reino celestial na terra para os

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